« Era uma vez... 25 histórias que um escritor foi contando ao longo da sua vida, mas que vieram a ser publicadas em livro só bastante mais tarde, muitos anos após a sua morte. Ao fim e ao cabo, duas dezenas e mais cinco contos de literatura, que por serem apenas isso jamais ocorreram, não se passaram em lado nenhum, sendo pois uma utopia, uma ilusão da arte da escrita!
Os textos reflectem uma grande diversidade temática, um indício de que estaremos perante momentos diferentes e muito afastados no tempo da produção literária do autor. Não deixa, aliás, de ser uma circunstância afortunada que só um dos textos possa ser rigorosamente datado, pelo facto fortuito de não ser inédito. Num registo mais profundo, encontramos sob essa diversidade algo que é comum a todas as histórias que se apresentam e que podemos qualificar como o espanto do escritor face as permanentes manifestações contraditórias do espírito e da vontade dos homens, capazes das vilezas maiores e, ao mesmo tempo, dos gestos mais nobres e mais corajosos. E como isso era, para ele, não propriamente ilógico, mas misterioso e perturbador, no plano dos juízos de valor!
Na sua dimensão narrativa, cada um dos contos reporta-se a um momento e a um local precisos, mesmo se esse momento e se esse local são exteriores ao tempo e ao espaço abstractos da descrição dos factos. Em especial, são exteriores ao tempo e ao espaço dos textos alegóricos, quando os bichos se puseram a falar numa linguagem só por eles bem entendida, por os homens terem sido privados da liberdade de pensamento e da paz social. Mais, por efeito de uma força do mal, que insidiosamente a tudo e a todos se sobrepunha, não ousavam sequer conversar da forma simples e descuidada, como por exemplo se fala em família, ou numa roda de amigos. Não podiam expressar os seus pensamentos mais íntimos sem serem logo atravessados por tremores irreprimíveis e, enquanto artistas e poetas, tinham o medo compreensível de contar os seus sonhos mais belos e mais loucos.
Eram, pois, os pássaros e os peixes e os outros animais da criação que em vez deles discorriam, se bem que à cautela o fizessem socorrendo-se de maneiras astuciosas de exprimir as suas ideias... Faziam-no, porém, sempre num tom prazenteiro, não fossem a afabilidade e a alegria as marcas irrefutáveis do caracter das almas simples!
Antes de prosseguir e para uma cabal elucidação das razões que me trazem aqui, permitam-me que ponha alguma ordem neste meu discurso, para ajustá-lo ao que, por definição, deve ser o verdadeiro objecto de um prefácio: o conto - e nisto ele distingue-se do romance, como género literário, - tende a suprimir o Tempo e o Espaço dentro de si, ou seja enquanto modo de narração. Fá-lo para, dessa maneira, poder pairar com mais consistência sobre aquilo que o rodeia, enquanto pura significação moral, embora esta surja neste caso de uma forma encapotada. O que nos deixa a nós a tarefa, no fundo divertida, mas por vezes de resultados imprevistos e nada tranquilizadores, de a descodificar, para tal recorrendo ao habitual método interpretativo, a partir da identificação do contexto.
Como todos sabemos, o contexto possui determinadas propriedades únicas, em contraposição às propriedades dos factos narrados, como seja uma duração e uma extensão, que são consideradas por muitos como de ordem física, o que quer dizer que serão pura e simplesmente irrevogáveis.
Eu, pelo que me cabe e sem pretender desviar-me um milímetro que seja da linha de argumentação aqui apresentada, posso acrescentar que o contexto da narração - essas tais duração e extensão físicas - são a própria vida do escritor, as suas andanças pelo mundo, os seus amores ocasionais e permanentes, os encontros sucedidos, as descobertas feitas, que não raro o terão deixado surpreendido, curioso, maravilhado mesmo. Ou, entrando agora no lado obscuro que existe em tudo o que é humano, também os caminhos que, sem qualquer lógica, lhe foram em algumas ocasiões desaconselhados, ou mesmo absurdamente proibidos, os locais e os seres que num rápido instante se lhe tornaram inacessíveis: nesses momentos, podemos dizer que nele cresciam o desejo de ser absolutamente livre e o poder de viajar perpetuamente através do espírito, de conhecer pela imaginação e de muitíssimo amar na distância…
De vários modos, com maior ou menor evidência, as histórias deste livro remetem-nos para esse contexto, numa relação que é, contudo, mais de ordem metafórica do que autobiográfica. Na verdade, elas não cessam de o invocar com certa subtileza, com sentidos segundos e legítimas precauções, não fosse o Diabo tecê-las... Como, de resto, convinha à época da sua concepção, um tempo já bem distanciado de nós, a ponto de lhe estranharmos os usos e costumes e as maneiras de dizer as coisas ou mesmo.de termos já começado a esquecê-lo.
Isto exactamente na medida em que, por um capricho inesperado dos deuses, o autor percorre o caminho oposto e se aproxima dos seus leitores. Libertando-se desse tempo, julgo eu que com um sorriso nos lábios, no seu andar pesado e firme, preparando-se com a serena confiança que em tudo tem por hábito depositar para nos contar, como se fosse apenas um velho amigo, acabado de regressar de uma longa viagem, algumas histórias da sua invenção, para nosso prazer e, por que não, também dele.
Entender-se-á agora melhor o motivo da minha presença nesta espécie de antecâmara da ficção que é o prefácio de uma obra literária: é que tendo os fados ordenado um encontro do escritor com os seus leitores, foi-me atribuído o clássico papel de mestre cerimónias! Precisamente a mim, que por feitio sou pessoa desleixada, um pouco distraída e ignorante de tudo o que respeita à etiqueta, as precedências e outros rituais de convivência humana...
Seja, mas que tal não me impeça então de ditar as minhas condições!
Para iniciar e com a autoridade recente de que fui Investido, desde já estabeleço que esse evento extraordinário tique com a data ajustada para o dia de Natal! Não é que eu pretenda com esta minha decisão passar por cima de inúmeras objeções que, aliás, saltam à vista: que não é o momento mais apropriado, por o Natal ser o dia da família e momento mais apropriado, por o Natal ser o dia da família e não da participação em actos mundanos e, muito menos, em eventos literários. Que ele está vocacionado sobretudo para o repouso da mente, as pessoas aproveitando a quadra para se alhearem das suas obrigações sociais, ocupando o seu tempo, por exemplo, a folhear mecanicamente velhos álbuns de fotografias, acompanhando na televisão a missa papal, trocando presentes e enviando votos de festas felizes ou mesmo passeando sem rumo definido. Que não é a altura indicada para se dar atenção às manifestações do espírito profano, as quais mesmo parecendo que não exigem sempre o dispêndio de alguma energia psíquica, pelo menos para "não se perder o fio à meada...". Resumindo, que há várias outras ocasiões mais propícias a essa maneira de utilizar os tempos livres, como é o caso dos fins de tarde ou das noites de semana do resto do ano!
E claro que todas estas objeções, eu conheço-as bem! Direi até que já as antecipava, se bem que com toda a franqueza não pense que elas tenham neste caso a menor relevância.
No fundo, o que quero dizer com a escolha do Natal é somente isto: Natal é quando alguém nasce, Natal é portanto qualquer momento do Tempo, o presente eterno donde nunca
saímos. Optar pelo Natal significa, pois, na prática, eleger cada instante da Vida ou, no que vem dar exactamente ao mesmo, é seleccionar todos os momentos deste Mundo!
Resolvida e arrumada de vez a questão do momento, estamos agora em condições de poder atacar a segunda questão, que é logicamente a do local adequado (do sítio legítimo, se se pode dizer!) para servir de palco ao acontecimento em gestação.
Atrevo-me antes de mais nada a opinar que o encontro predestinado do narrador destes contos connosco não faria grande sentido se tivesse que ter lugar dentro de quatro paredes. No meu modesto entender, ele perderia uma boa parte da sua razão se fosse previsto para um recinto fechado, daqueles que propositadamente se constrói para albergar esta espécie de iniciativas e a que correntemente se chama centros culturais! Quanto a mim, ele convida pelo contrário a um enquadramento mais ligado à terra nua, que só poderá ser o de uma reunião a céu aberto. Imagino para esse efeito o cenário seguinte: uma noite de lua cheia, uma roda de amigos, uns deitados de bruços, a cabeça ligeiramente erguida, outros apoiados nos calcanhares, ou sentados de pernas cruzadas, conforme os seus gestos ancestrais. E tendo, ao centro, ateada uma grande fogueira, cuja justificação reside mais no estranho magnetismo que o fogo exerce sobre nós do que numa qualquer função prática.
É um cenário que - ninguém poderá negá-lo - tem desde sempre sido um estímulo poderoso à comunhão dos espíritos no respeito pela individualidade própria de cada um!
Arquitectar as linhas mestras de um cenário não é, porém, o mesmo que apontar um local em concreto. Pois bem, para ele o que não falta são candidaturas, todas elas igualmente legitimas e não destituídas de argumentos em seu apoio!
A primeira proposta tem a seu favor razões acima de tudo de ordem estética. Ela consiste em aprazar-se o encontro para um local plano e ermo, situado logo à saída do pequeno burgo de Maçãs de Dom Fafe, lá para as bandas de Terras do Bouro, em pleno Minho português. E um local que tenho a felicidade de conhecer bem e que não me canso de admirar sempre que por lá passo a caminho da Caniçada e de Salamonde: tem como anfiteatro natural, bem ao fundo, a belíssima serra do Gerês, merecedora a mais do que um título do estatuto de área protegida, para o que, diga-se de passagem, em muito contribuiu a militância infatigável das grandes famílias de Maçãs de Dom Fafe em defesa dos valores paisagísticos da sua terra. De resto, uma delas pode dar a este livro uma das suas personagens mais sublimes, o senhor António Bouças, um homem que se notabilizou por ter sido Deus, se bem que somente durante algumas horas!
As areias da praia da Nazaré, no prolongamento para o sul, logo depois do porto de abrigo e do desaguar do rio, são também uma séria candidata. A sua escolha teria um valor essencialmente afectivo, dado que a vila da Nazaré está muito ligada à história pessoal do narrador, em especial no período que antecedeu o retorno à Africa da sua inocência.
Uma vantagem adicional desta opção estaria no facto de termos, como anfitrião, uma outra notável personagem deste livro: Zé Faneca, pescador, filho e pai de pescadores. Que com certeza, com todo o seu entusiasmo nos mostraria o seu mar, mar calmo, mar bravio, mas sempre o mar bonito da Nazaré. Para o contemplarmos e ficarmos comovidos!
Quebo, no sul da Guiné, na transição da savana para a floresta, chão de fulas, é outro dos grandes candidatos. Para quem não saiba, Quebo é a exuberância do mundo: exuberância da flora, exuberância da fauna, exuberância do verbo, lugar de mitos, a origem de tudo, a explicação de mistérios, o dilúvio e a salvação! Aí seríamos peregrinos, discípulos humildes por um breve tempo de Umaru Só, "velho para além de toda a idade", e ouviríamos da sua boca contada uma vez mais a história verídica do cativeiro dos bichos, que aconteceu depois do "tempo em que todos os seres viviam na mais perfeita harmonia e a paz reinava em toda a parte". Para lição nossa, ou não fosse Quebo terra da iniciação, espaço sagrado, biblioteca do mato, memória dos tempos e dos seres?
Três lugares possíveis e muitos outros ficam por mencionar.
Locais de montanha? O Tibete, os Pirinéus. Planícies? O pequeno Alentejo e a enorme Amazónia. Cidades, capitais, Roma, Lisboa, Joanesburgo. O mar frio da Terra Nova, os céus tórridos do Gana.
Basta-nos, no entanto, mudar a escala e num ápice tudo se equivale! A Terra é agora um pequeno ponto do Universo, todos os sítios são indistintos e em todo o lado realiza-se o encontro desejado. O narrador é o primeiro a lembrar-nos isso mesmo: "O eu deste livro está em dois ou três locais ao mesmo tempo". Do mesmo modo que a questão do momento, também não tem qualquer importância a questão do local.
Que é qualquer um e será todos eles!
Há um assunto de que não me ocuparei. Aliás, ele diz respeito ao editor do livro e não à minha pessoa. Refiro-me à estafada questão dos convites, de quem deve ser convocado para estar presente: representantes disto e daquilo, notáveis, escritores, crítica, comunicação social….
Não é que esteja a querer fugir às responsabilidades, dando rédea livre a uma propensão inata em mim para o "não te rales, que tudo se há de compor"! Mas, de facto, não convém confundir um encontro etéreo de almas gémeas a ter lugar à margem do tempo e do espaço físicos - que é do que se trata aqui, no fundo! - com uma prosaica sessão de lançamento de mais um livro, com apresentador encartado, pedidos de autógrafo, cumprimentos, risinhos, parabéns por esta ou outra razão ou mesmo sem razão alguma, à mistura com algum enfado e a inevitável maledicência!
Tanto quanto posso entender, a questão colocada é outra.
Na realidade, e como ele próprio o reconhece, o narrador deste contos não possui uma existência aparte: "eu não existo", afirma dele em certa altura, com toda a tranquilidade e lucidez!| Transforma-se, com efeito, o narrador na própria substância narrada ou, sendo um tudo menos polémicos nas nossas afirmações ele só existe através das suas personagens, ele é as suas personagens, cada uma delas e também todas elas em conjunto!
São, por este motivo, elas - e não ele - que brotam da escuridão e vêm ao encontro do seu destino: o tempo em que vagueavam como almas perdidas aproxima-se agora do fim. Como não podia deixar de ser, descem por um raio de sol, que as ilumina na noite, e vão, uma após a outra, tomar o seu lugar na história e na ficção!
Eis, pois, a abrir o caminho, Apolinário dos Santos, barbeiro, Eis, pois, a abrir o caminho, Apolinário dos Santos, barbeiro, e atrás dele Fernando Caeiro, natural de Beja, o último viajante num mundo cheio de turistas, Zeferino José dos Santos, ajudante do registo civil e "propenso à organização de manifestações fúnebres", Atanásio de Deus Tavares, regedor da terra de João Ninguém e primo do escritor, o tio Malaquias, cocheiro nas Caldas da Rainha, que apenas trabalhava o suficiente para viver e não para enriquecer.
Eis Raimundo Esteves, maníaco até mais não do tempo exacto e que acabou por endoidecer no meio da neblina de Londres, eis o próprio Diabo, comerciante arruinado, com escritório de transacções aberto na Praça dos Restauradores, em Lisboa. Eis muitas outras personagens: Dona Maria dos Prazeres de Figueiredo, senhora da moda, uma mulher tout à fait à la page, o Dr. Sousa, professor de história num qualquer liceu da província, o crítico literário da revista Tempos Novos, que um dia foi ludibriado por um cérebro electrónico.
Eis o administrador geral das matas da Guiné e logo após dois professores universitários em discussão animada sobre os enigmas da mente humana. Um deles é etnógrafo europeu, o outro é africano e sociólogo.
Eis Manolo o espanhol, mais precisamente um andaluz, republicano, marxista-leninista, que acreditava em fantasmas e Benito Salvatore, natural de Nápoles, principe di Carmana, cujo pai caçava comunistas, enquanto a mãe orava pela alma dessa gente ímpia.
Eis os bichos miúdos e graúdos em que o narrador também se metamorfoseou: uma garça chamada Macute, que perverteu o mundo, a águia real, o colibri e os papagaios, búfalos, macacos, grilos, melros, chimpanzés, o Saninho de Rabo-Pelado, famoso roedor de chabéu e fundador de um centro recreativo-cultural-desportivo "à semelhança daqueles que o bicho homem possui", manguços, cágados, onças, elefantes e muitos, muitos mais!
A fechar a série imensa de homens e bichos, eis Tcherno Rachid, filósofo e mestre da lei corânica. A todos ele saúda longamente e repete-nos as palavras do Profeta: "Nenhum homem é superior a outro senão pela sua piedade »!
Como se vê, tudo ao fim e ao cabo se compõe por si. Sendo assim, só me resta dar por terminada a mediação: a ficção está aí, à vossa frente!
Henrique Schwarz
Um dos contos escrito pelo meu pai quando da estadia em Caxias hospedado pela PIDE.
O Cativeiro dos Bichos
por Artur Augusto Silva
A história que ides ler foi-me contada na tabanca de Quebo, no sertão da terra dos fulas, por um homem chamado Umarú Só, velho para além de toda a idade e que por ser velho e sábio conhecia os segredos do mundo e as suas maravilhas.
Vou narrá-la por palavras minhas, porque sei que não me perdoariam o uso daquele estilo floreado, exuberante, por vezes difuso mas sempre poético que os fulas usam para contar uma história.
Houve um tempo em que todos os seres viviam na mais foi perfeita harmonia e a paz reinava por toda a parte. Isto passou-se antes de ter nascido uma garça chamada Macute e que ficará para sempre como o anjo mau que perverteu o mundo.
Foi o caso que numa manhã de sol, quando as manadas de búfalos pastavam nas lalas verdejantes de Bambadinca, uma garça ainda nova e inexperiente, ao esburgar com o bico as carraças de um búfalo, picou-o profundamente, o que o levou a dar um sacão com a cauda, sacão que apanhou a garça e a fez cair !
As coisas teriam ficado por aqui se não fora a garça Macute que, de longe, presenciou o caso e porque queria tornar-se rainha das aves, logo engendrou um plano que a conduzisse à satisfação dos seus desejos.
Andou de terra em terra convocando uma grande reunião de todos os bichos que voam para tomarem conhecimento da maior afronta que jamais fora praticada sobre um ser vivente.
Chegado o dia da reunião, ali se encontrou toda a bicharada que povoa os ares, desde a águia-real, de peito branco e palavra e bico adunco, até ao colibri que é mais pequeno que a pequena flor. Vieram os papagaios vestidos de cinzento e peitilho vermelho, vieram todos os patos, desde o marreco ao ferrão, vieram as galinhas, incluindo as perdizes e as galinhas da Guiné todas louçãs na sua vestimenta preta de bolas brancas, vieram os mergulhões de longo bico plumagem verde, azul, preta e branca, veio toda a casta de pardalada que enxameia os céus, vieram as abetardas no seu voo lento e majestoso e, por fim, chegaram as borboletas no seu voo saltitante e colorido.
Reunidos todos, a garça Macute declarou que era necessário escolher um presidente que dirigisse os trabalhos mas, quando esperava ser investida no cargo, teve a desilusão de ver que optavam pela águia-real. A águia-real soltou três assobios e declarou aberta a assembleia.
Logo a garça Macute levantou uma questão prévia:
– Vejo aqui as nossas boas amigas, as avestruzes, mas afigura-se-me que elas não são aves. Com efeito, desde que que o mundo é mundo, não há notícia de que uma avestruz tenha voado. Elas fazem parte dos bichos que andam e, por isso, não devem tomar parte da nossa reunião.
Todas as garças grasnaram em sinal de assentimento e estabeleceu-se um certo burburinho, prontamente reprimido pelo presidente que declarou ir pôr po caso à votação.
A coruja, sábia reconhecida por todos, pediu a palavra e disse:
– O problema posto pela nossa companheira, a garça, não é novo e muitas têm sido as opiniões ventiladas sem que se chegue a qualquer conclusão. Se é verdade que a avestruz tem asas, não é menos certo que nunca se serve delas para voar. Em minha opinião, devem ser classificadas entre os bichos que andam e não entre os que voam.
Como, após tão sábio resumo, ninguém quisesse usar da palavra, a águia pôs o caso à votação, e por maioria esmagadora foi decidido que as avestruzes não eram aves, mas sim bichos que andam.
Então a águia convidou a garça a dizer do motivo da reunião, e Macute começou:
– As aves são neste mundo em que vivemos, os animais mais nobres e mais valentes. Nunca uma de nós sofreu qualquer vexame ou insulto sem que imediatamente respondesse. Ora, devo dizer-vos que é com o coração oprimido de indignação e raiva que vos vou contar que há dias, na bolanha de Bambadinca, uma de nós, precisamente uma garça, foi vítima de agressão por parte de um búfalo. Devo acrescentar que o caso não pode ficar assim e por isso proponho que se declare guerra sem quartel a todos os bichos que andam.
Uma vozearia infernal atroou os ares e os abutres eram, de entre todas as aves, quem mais grita fazia, apoiando tão dignos sentimentos.
Um pardalito que estava presente, voltou-se para um jagudi que mostras de grande contentamento e ainda disse:
– O que vocês querem é que haja guerra para poderem comer a carne dos que morrem.
Logo o jagudi, gritando traidor, deu-lhe uma sapatada em três tempos o engoliu.
- Calma! Calma! - gritava a águia-real, receosa de não ter mão na assembleia.
Serenados um pouco os espíritos, a águia deu a palavra ao primeiro orador inscrito, o periquito. Este começou por dizer que a afronta fora grave mas, em seu entender, deveria averiguar-se primeiro se as coisas se tinham passado conforme o relato da garça, porque não via razão para que um búfalo magoasse uma garça, sem qualquer razão. Propunha, pois, uma comissão de inquérito.
O papagaio, segundo orador, citou alguns precedentes em que o comportamento dos bichos que andavam para com os bichos que voam demonstrava crueldade e propôs que o caso fosse levado ao conhecimento do bicho homem que possui discernimento mais do que suficiente para resolver o conflito.
As corujas apoiaram e depois de muitos oradores terem falado, foi resolvido levar o caso ao bicho homem. Formada a comissão que se avistaria com o bicho homem, dissolveu-se a assembleia, no meio de grande excitação.
O papagaio, como falador de grandes conhecimentos, presidia à comissão de queixa, a qual se dirigiu ao bicho homem para fazer as suas lamúrias.
Ouviu o bicho homem as mágoas da passarada e ali jurou que iria investigar, para que se fizesse inteira e completa justiça. Voltassem daí a sete dias, para ouvir a sua resolução.
A passarada retirou-se em boa ordem e o bicho homem ficou a esfregar as mãos de contente porque em sua cabeça surgira um plano.
Mandou o bicho homem chamar o rei dos bichos que andam e que é, contra o que se pensa, o elefante.
Veio este acompanhado de numeroso séquito do qual fazia parte o seu melhor conselheiro, o macaco.
Exposto o motivo da convocação, logo ali declarou o elefante que as intenções da bicharada que anda eram pacíficas e que nunca, até aquele momento, qualquer dos seus súbditos fizera mal a outrem, facto que devia ser do conhecimento do bicho homem que tudo sabe.
– Na verdade, na verdade – retorquiu o homem. – Mas há uma queixa e é necessário saber quem tem razão. Parece-me que seria melhor que os bichos que andam nomeassem um delegado e os que voam, outro, para trazerem a minha presença, as alegações de cada parte e as provas a produzir...
Todos concordaram e ficou estabelecido que daí a sete dias e se realizaria o julgamento do caso.
Sete dias passados e à hora marcada, reuniu-se a grande assembleia e o bicho homem, dizendo que ambas as partes lhe mereciam o maior respeito e consideração e que, assim, não podia dar a direita a um e a esquerda a outro, propôs que o representante de cada parte ocupasse a direita durante meia hora e que a primeira posição fosse tirada à sorte.
Constituído o Tribunal, entraram o macaco como advogado dos bichos que andam e mais vinte e sete testemunhas, logo seguido pelo papagaio, representante dos bichos que voam, com vinte e cinco testemunhas.
Historiou o homem o diferendo em poucas palavras e pediu ao papagaio, como advogado da parte acusadora, que dissesse da sua justiça.
Falou o papagaio com perfeita dicção e clareza, citando vários confrades seus e algumas palavras que ouvira aos homens, o que lhe valeu aplausos até dos bichos que andam.
Empertigou-se o macaco, abriu os braços como já vira em comícios do bicho homem e analisou, um por um, os argumentos do papagaio e a sua queixa. Falou no amor, na justiça piedade, em todos os sentimentos nobres e a tal ponto comoveu a bicharada que voa, fez chorar um pardal estouvado e brincalhão como todos os pardais.
Exposta a questão, iniciou o bicho homem a audição das testemunhas e quer as de acusação, quer as de defesa, declararam nada saber do assunto.
Concedida novamente a palavra aos advogados, estes excederam-se em citações: foram épicos, heróicos, patéticos, fizeram chorar a assembleia e, logo a seguir fizeram-na rir desabridamente e foi numa das suas tiradas mais sublimes que o macaco, demonstrando rara intuição científica, classificou o homem de seu primo. O Chimpanzé que estava seguindo a peroração nos menores detalhes, comentou em à parte: primo, mas degenerado.
Depois desta afirmação solene do macaco, os jornais e revistas que o bicho homem publica, começaram-na citando obstinadamente, pelo que hoje é ponto assente a existência de tal parentesco.
O bicho homem suspendeu a sessão por uma hora, ao cabo da qual reentrou para ler a sentença. Era uma longa peça de considerandos e que começava por afirmar que "em virtude de se não ter provado a queixa dos bichos que voam, mas convindo fazer justiça, profiro a seguinte sentença: Julgo a acusação improcedente mas, tendo em atenção que a paz é um dever indeclinável de todos os espíritos sãos, e para poder reservá-la, determino que me sejam entregues como reféns e para garantia da paz futura, um animal de cada uma das espécies que voam que andam".
Eliminava magnanimamente custas, dada e manifesta pobreza das partes.
Todos animais, tanto os que voam como os que andam, aplaudiram delirantemente tão sagaz decisão e só o macaco, fiado no parentesco com o bicho homem, quis recorrer da decisão, alegando que "começara a escravatura".
Ninguém o quis ouvir, a decisão ficou sem recurso (recurso para quem? perguntava o papagaio) e o bicho homem começou encaminhando a bicharada para currais e capoeiras previamente instalados por sua indústria.
A verdade é que com o correr dos anos as palavras do macaco tiveram plena comprovação, pois o bicho homem nunca mais soltou nenhum dos reféns e porque estes se reproduziam e o bicho homem não tinha com que alimentá-los, passou a comer deles cada vez com mais apetite.
Se acontecia alguém perguntar ao homem a razão de tão prolongado cativeiro, respondia: como querem que eu os liberte se ainda ontem vi um milhafre pilhar um rato e comê-lo em três tempos? É com sacrifício, com muito grande sacrifício que dou de comer à bicharada, mas mesmo com sacrifício devo manter a minha palavra honrada e a minha justiça proverbial.
É certo que ensinei os bois a trabalhar para mim; é certo que como a carne dos bichos e uso das suas penas e da sua pele em utensílios que fabrico, mas não é menos verdade que todos devem conhecer a minha isenção. Estou esperando que os bichos consigam uma promoção social que os habilite a entrar no concerto dos seres civilizados para, então, lhes dar a liberdade que eu desejo mais do que eles.
Se a história é verdadeira, não posso assegurá-lo pois que os factos passaram-se há muitos anos e não conheci o bicho homem que fez tal justiça; mas, porque Umarú Só é pessoa séria, incapaz de inventar, estou em crer que eles se verificaram conforme a narrativa.
(Prisão de Caxias, 1966)
O Henrique compareceu na cerimónia de homenagem ao Carlos que teve lugar na Fundação Mario Soares em Lisboa a 7 de Março de 2014 e em Bissau, Guiné organizada pela associação Acção para o Desenvolvimento a 18 de Março de 2014.
A certa altura o Henrique começou a ser tratado mais sériamente com estadias no Hospital Curry Cabral e Sao José. Subir as escadas do prédio dele até ao terceiro andar começaram a constituir um problema, que foi resolvido com a ida dele para a casa da Catarina, nossa sobrinha. A ambulância ia la busca-lo para as sessões de quimioterapia no Hospital Sao José e foi assim que ja muito cansado o Henrique veio a falecer no Hospital, no dia 15 de Julho de 2017. As cinzas do Henrique foram levadas para a Guiné onde ele repousa na campa dos meus pais e do meu irmão Carlos.
Em 2017 teve lugar uma homenagem ao Henrique a quem foi atribuído o Prémio Carreira 2017