O meu Irmão Henrique
Henrique foi o primogénito de uma ninhada de três rapazes. Nasceu em Lisboa na freguesia de Santa Isabel a 27 de Novembro de 1941 e teve que esperar oito anos para receber a companhia de dois irmãos, o Joao nascido a 3 de Outubro de 1944 em Alcobaça e o Carlos nascido a 1 de Dezembro de 1949 em Bissau na antiga Guiné Portuguesa.
Fotografia do Henrique com um ano.
O nosso pai Artur era advogado e nos anos 30 e 40 fazia parte do MDP (Movimento Democrático Português) e bem entendido não era um admirador do Estado Novo. Como tal sentiu a necessidade de se refugiar em Alcobaça longe da agitação politica de Lisboa, numa região que conheciam bem perto de Cela a Velha onde o meu pai tinha passado a época do verão e perto de Sao Martinho do Porto onde o meu avô Samuel tinha comprado uma casa oferta à minha mãe Clara na altura do casamento com o meu pai Artur a 14 de Outubro de 1940.
Dessa época e nos anos 1944-1948, o Henrique e eu vivemos em Alcobaça com idas frequentes à casa de Sao Martinho do Porto. Esta fotografia data de 1946 tinha o Henrique 5 anos.
Numa das nossas idas a Sao Martinho do Porto com a avo Agatha em pé e o avô Samuel sentado.
Dos tempos do pós-guerra lembro-me de assistir a desfiles organizados pelo governo onde o povo cantava « Senhora de Fatima livrai-nos das garras do comunismo ateu ». A vida em Alcobaça decorria sem grandes percalços excepto que o meu pai continuava de baixo da vigilância da PIDE até ser acusado de ser simpatizante do Partido Comunista e de contribuir à disseminação do Jornal Avante. Tendo sido informado que em breve iria ser preso, o meu pai que tinha vivido a infância na Guiné com os pais emigrados da Ilha Brava de Cabo Verde, decidiu, levar a família para a Guiné onde chegámos em 1948. Lembro-me da viagem no navio Ana Mafalda que parava na Madeira e em Sao Vicente. O navio Ana Mafalda era um cargueiro com meia dúzia de cabines que não tinha cais para atracar em Bissau tendo os passageiros de descer por uma enorme escada para entrar num batel que nos levava ao porto de desembarque.
O navio Ana Mafalda
Un ano depois da nossa chegada, no dia 1 de Dezembro de 1949, nasceu o Carlos o ultimo filho da família. Lembro-me perfeitamente pois o meu pai veio acordar-nos para anunciar a chegada do Carlos.
Aqui estamos os três em frente da casa de Sao Martinho.
Para facilitar a vida da minha mãe em Bissau e para dar companhia ao meu avô que perdeu nesse ano a minha Avó Agatha, os meus pais decidiram enviar-nos a mim e ao Henrique para Lisboa. Com o meu avô como professor e animador da nossa vida nomeadamente da nossa vida escolar, posso dizer que foram tempos de infância muito agradáveis. O apartamento do meu avô na Avenida Antonio Augusto Aguiar 118, estava mesmo em frente de um terreno sem qualquer construção onde hoje em dia se situa o Corte Inglês. Henrique e eu nas nossas brincadeiras íamos andar de bicicleta num terreno selvagem cheio de montanhas e vales. Samuel levava-nos a Feira Popular que nessa altura estava no local hoje ocupado pela Fundação Gulbenkian. A nossa escola ficava mesmo ao pé da Igreja de Sao Sebastião da Pedreira.
Em Junho de 1951 o Henrique escreveu uma carta aos pais que estavam na Guiné.
Os tempos que passamos com o avô Samuel foram muito agradáveis pois tínhamos enorme espaço para brincar e as leituras do Cavaleiro Andante e o Mundo de Aventuras. O avô Samuel que tinha uma enorme biblioteca num salão onde se entrava raramente, dava-nos aulas de tudo e mais alguma coisa e mostrava-nos a enorme coleção de pedras preciosas recolhidas nas diversas minas onde ele tinha trabalhado.
Em nossa casa la apareciam as primas, Beca, Choni e Néné, filhas da nossa tia Cristina, irmã do nosso pai, sobretudo quando chegavam da Guiné latas de chocolate Cadbury. Íamos regularmente a casa da tia Cristina que estava casada com o tio Brandao, médico colonial, que apesar de ser muito rico, era um forreta da pior espécie que impedia a nossa tia de nos dar umas moedas de vez em quando.
A 10 de Junho de 1953, dois anos depois da nossa chegada a Lisboa, o avô Samuel morre o que leva a minha mãe a vir a Lisboa. Meses depois voltamos à Guiné mas desta vez foi de avião com paragem em Dakar e ida para Bissau dois dias depois. Viajamos num avião Constelação da Panair do Brasil. Mais tarde o percurso de regresso à Guiné depois das ferias de verão, modificou-se com uma paragem na Ilha do Sal em vez de Dakar.
Foi também no fim de 1953 que os meus pais ou por convite do meu tio-avô Alexandre que vivia em Montreal no Canada, ou porque o Henrique devia aperfeiçoar a sua educação em língua inglesa, decidiram envia-lo passar um ano inteiro em Montreal. Penso que na vida do Henrique talvez esta ida para o Canada tenha sido o pior que lhe poderia ter acontecido. Mesmo se os tios-avôs do Canada fossem pessoas excepcionais, o facto é que o Henrique se sentiu muito isolado e longe dos pais com 13 anos de idade o que lhe forjou o caracter levando-o a viver sempre muito isolado.
Em Montreal o Henrique frequentou durante esse ano uma escola que fazia parte da rede de escolas protestantes de Montreal. Nessa altura a escola era conhecida pelo nome de West Hill School e estava a poucos metros da casa dos meus tios-avôs que viviam no numero 4376 Madison Av, NDG.
A escola que ele frequentou:
E a casa dos tios onde ele viveu:
O Henrique tinha um quarto muito amplo que dava diretamente para o jardim da casa de onde se podia ver a escola.
De regresso a Bissau no verão de 1954 o Henrique ingressou no Colégio Liceu de Bissau - Colégio Honório Barreto, cujas instalações se situavam na praça do Império onde estava o Palacio do Governador e uma estatua representando o esforço da raça e que davam acesso ao Museu e biblioteca de Bissau. Foi também neste museu que funcionava o Centro de Estudos da Guiné Portuguesa que publicou inúmeros estudos sobre as mais diversas faceta da Guiné.
Passávamos as férias do Natal e da Páscoa em Varela no único Hotel que la havia e que era dirigido pelo Sr. Piresa. Para chegar a Varela travessávamos praticamente toda a Guiné pois nessa altura ainda não havia pontes, o que significava que atravessávamos dois rios de jangada que levavam no máximo três carros. Ou passávamos por Mansaba ou por Farim mas a pior jangada era sem duvida a jangada de Barro. A jangada era puxada por um sistema de cordas ligadas às duas margens do rio. Havia também uma equipe de remadores que de canoa ajudavam a levar a jangada de uma margem para a outra. So mais tarde é que as jangadas foram motorizadas. Para chegar a Varela tínhamos forçosamente que passar por São Domingos e Susana. Entre estas duas terras havia uma ponte de madeira que com o tempo la ia perdendo umas tábuas e uns pregos o que impunha a travessia a pé para evitar que o peso carro com todos la dentro desmoronasse a ponte.
Quando a maré estava muito baixa atravessávamos os rios de canoa pois a entrada do carro na jangada tornava-se numa coisa muito perigosa. Com dois rios a atravessar, a viagem até Varela no extremo norte da Guiné levava no mínimo 6 horas quando não era preciso parar para remendar um furo nos pneus, ou passar pontes de madeira, em mau estado, a pé indo o carro a cinco à hora.
No Natal o Henrique e eu pendurávamos « neve artificial » e brinquedos de lata comprados em Ziguinchor, nas casuarinas à volta do Hotel que so dispunha de restaurante e que não tinha quartos. Havia um conjunto de casas que tinham sido construídas por varias instituições , tais com o Banco ou um Ministério, nas quais eram albergados os amigos que conseguiam reter um quarto.
Para evitar qualquer conflito de interesses, o nosso pai Artur comprou um pequeno terreno onde pouco a pouco surgiu uma casota de férias com dois quartos e uma casa de banho. Uma das melhores recordações de Varela era na Páscoa quando as tartarugas vinham desovar na praia o que levava o cozinheiro do Hotel a fazer omeletes gigantescas com um sabor horrível a peixe.
Durante as férias havia uma grande afluência de gente a Varela muita vinda de Ziguinchor no Senegal. A certa altura abriram-se dois campos de tennis ao pé do Hotel e um pequeno aeroporto que permitia a aterragem de avionetas. Anos depois quando la voltei a passar, o campo de aviação jà não existia pois as formigas tinham construído aquilo a que se chamam « morros de baga baga » praticamente indestrutíveis.
Em Varela lembro-me também de assistir à prospeção de petróleo por uma companhia americana que um belo dia se foi embora vendendo ao desbarato todo o material que la tinham levado como frigoríficos, barcos de fundo chato e material de transporte. O meu pai comprou um desses frigoríficos que era tão bom que so foi reformado com 60 anos de serviço o que prova que o conceito de obsolescência programada não tinha ainda integrado o mundo industrial.
Duas fotografias tiradas nessas férias com os três filhos e os nossos pais em frente da casota de férias e encostados a uma carro americano de marca Nash
Henrique e eu passávamos as tardes a jogar à batalha naval ou outras guerras com soldados de chumbo e com o apoio das peças dos brinquedos de construção da marca Meccano. Tínhamos também equipas completas de futebol com os jogadores representados por caricas de garrafas de cerveja cheias de vela e com as fotografias das cabeças dos jogadores coladas na carica. A bola era representada por uma carica sem vela. Como guarda redes utilizávamos tampas maiores. E como balizas utilizávamos as mãos o que dava lugar a grandes discussões pois as minhas mãos eram mais pequenas que as do Henrique.
Um dia provavelmente sem razão nenhuma, o Henrique zangado comigo ameaçou-me de me « en……ar». Sem saber o que esta frase significava mas percebendo que não era uma ameaça fútil, fui queixar-me ao nosso pai Artur que bem entendido lhe deu um valente puxão de orelhas. Aqui vão os boletins de notas do Henrique nos anos 1955 e 1957 no Colégio Liceu de Bissau:
Com o quinto ano feito e com 16 anos de idade o Henrique teve que ir para Lisboa pois nessa altura o percurso escolar em Bissau ainda não atingia o terceiro ciclo.
Foi assim que o Henrique ingressou no Colégio Moderno do Dr. Mario Soares e que concluiu a 13 de Julho de 1959, no Liceu Passos Manuel os exames do terceiro ciclo (sétimo ano).
No verão de 1958 fomos todos de carro a Bruxelas ver a Exposição Internacional de 1958. Entre as diferentes maravilhas qui vimos houve o Atomium símbolo da Bélgica, o pavilhão russo com a réplica ou o original do Sputnik que tinha sido laçado no ano anterior e uma série de maquinas, parecidas com balanças que eram plataformas vibrantes, espalhadas pelo recinto da exposição que permitiam fazer descansar as pernas e os pés depois de um dia inteiro a andar.
No regresso de Bruxelas passando por Paris vimos um filme russo muito admirado na altura que se intitulava « Quand Passent les Cigonhes ».
No verão seguinte fomos de carro até Marrocos com passagem por Algeciras, Ceuta, Tanger e Tetuão . Antes da partida tirámos esta fotografia em São Martinho do Porto.
Quando foi a minha vez de ir para a Universidade em 1960, jà o Henrique estava na Faculdade de Direito, os nossos pais alugaram um apartamento na Rua Augusto Gil 37, 3° em Lisboa. Cada um de nos tinha os seus afazeres e só nos cruzávamos cedo de manha ou à noite. Uma ou duas vezes por semana, la vinha a Maria pôr a casa em condições. No segundo andar do prédio vivia o Sr. Orbach que sofria imenso com o barulho que obviamente nos fazíamos quando eram organizadas umas patuscada la em casa. O pobre homem deixava-nos cartas a protestar e nos respondíamos com o sarcasmo da juventude que era obviamente irreverente e caótica.
Nessa época, os estudantes universitários que viviam perto da Avenida de Roma, tinham os seus hábitos. Eu frequentava o café Londres que tinha uma enorme esplanada e sobretudo uma zona de bilhares e era um local predileto para os estudantes que la passavam horas a « estudar » tendo investido numa bica a 15 tostões. Por outro lado a Mexicana, café mais selecto, era frequentado por outro grupo de estudantes entre os quais o Henrique. Lembro-me que um dia, sentado na esplanada do café Londres repleta de estudantes, vi o Henrique passar vindo da Mexicana. Um dos colegas do Henrique lança o seguinte grito com voz de Stentor « Oh Henrique estás com a braguilha aberta » . O Henrique sem parar vira a cara para o colega e diz « Bem sei fui eu que a abri »
A contestação Estudante
Nesses anos e sobretudo a partir de 1962 a juventude universitária tinha começado a agitação acadêmica tendo marcado para Março de 1962 a comemoração do Dia do Estudante. E claro que o governo não podia autorizar este tipo de manifestação e foi assim que começaram as greves dos estudantes cujo ponto culminante foi a ocupação da cantina da Universidade seguindo-se a detenção de inúmeros estudantes pelas forças de policia mandadas intervir pelo Magnifico Reitor Marcel Caetano. O Henrique que ja fazia parte dos corpos dirigentes da Faculdade de Direito, foi apanhado pela policia e passou um ou dois dias na esquadra tendo sido interrogado pela PIDE.
A fotografia do Henrique nos registos da PIDE.
No meu caso, as manifestações a favor do dia do estudante eram uma ocasião para desfilar, protestar contra a guerra colonial e contestar o regime prepotente do Salazar, tendo sempre um olho na presença da policia nas manifestações o que me levou a nunca ter sido preso. Um belo dia perto do Liceu Camões conseguimos apanhar um polícia a jeito e roubámos-lhe o cassetete que bem entendido passou a ser exibido num estojo de veludo, com a dignidade e pompa que tanto merecia.
Henrique com a mãe e a nossa amiga Margarida Moutinho na Rua Augusto Gil.
A partir de 1962 a crise acadêmica endureceu com confrontos frequentes entre estudantes e forças policiais, tendo a PIDE começado a prender membros das cúpulas associativas das diversas associações de estudantes.
Nesta nota interceptada pela PIDE e datada de Novembro 1963 um apelo é lançado aos estudantes de Direito para votarem na lista de candidatos à Associação Académica da Faculdade de Direito. Lá aparece o nome do Henrique com os outros membros da lista entre os quais o José Nepomuceno que mais tarde se refugia em Paris e o Fernando Baeta Neves que fará mais tarde uma tentativa de suicídio.
A 1 de Julho de 1964, a PIDE redige uma nota sobre os organizadores do Dia do Estudante que são objecto de um inquérito para aplicação de medidas disciplinares.
Aqui se vê a única fotografia dos corpos dirigentes da Associação Académica da Faculdade de Direito de Lisboa com o Henrique à extrema direita, o José Nepomuceno à extrema esquerda e o Fernando Baeta Neves ao lado do José Nepomuceno.
A Associação de Estudantes de Direito também em 1963 envia o seguinte comunicado que inclui uma lista dos problemas que ao ver dos dirigentes da Associação Académica deviam ser tratados em Assembleia Geral.
Por brincadeira os colegas do Henrique na Associação escrevem esta nota:
Na altura da apresentação da lista dos candidatos à Associação Académica da Faculdade de Direito é fornecido o currículo dos membros da lista:
A 23 de Abril de 1964 a Associação Académica da Faculdade de Direito envia ao Conselho escolar uma carta aberta:
A 10 de Julho de 1964, Henrique recebe em casa uma copia da acusação deduzida no processo disciplinar instaurado pelo Ministro da Educação. Interessante notar que o processo acusa os estudantes de insubordinação com a circunstancia agravante de terem premeditado a organização do Dia do Estudante.
E-lhes fixado o prazo de 3 dias a contar da data de entrega do acto de acusação para apresentarem a sua defesa. Uma nota da PIDE a 28 de Agosto de 1964 revela as penas a que são condenados os membros da Associação de Estudantes da Faculdade de Direito.
A 4 de Setembro de 1964, Henrique recebe do Director da Faculdade o despacho que o exclui da Faculdade por um ano e um dia.
A 1 de Setembro de 1964, e em resposta à convocatória que lhes foi enviada a 27 de Agosto de 1964, o Henrique, ja em Paris, e o José Nepomuceno enviam uma carta ao ilustre Director da Faculdade Prof. Doutor Raul Ventura.
Finalmente a 17 de Setembro de 1964 são anunciadas as seguintes penas relativas a todas as Faculdades de Lisboa.
De Lisboa a Paris
Na sequencia dos eventos do verão 1964, Henrique e nos ele, decide dar o salto ou seja sair de Portugal sabendo que rapidamente teria que ir fazer o serviço militar. Para não causar problemas à família, Henrique decide organizar a saída de Portugal sem avisar ninguém. Com um grupo de outros candidatos à fuga, Henrique encontra o homem que os levaria a passar a fronteira com a Espanha, la para os lados de Vilar Formoso. Pela noite calada e troco de 15000 escudos, Henrique passa a fronteira e chega até Ciudad Rodrigo depois de uma caminhada de vários quilômetros.
Sem dinheiro, sem passaporte e sem contactos, Henrique telefona aos pais em desespero a partir de um cafe de Ciudad Rodrigo. O meu pai que na altura também ja não era persona grata do governo, pega no meu passaporte, mete-se no carro e apanha o Henrique em Ciudad Rodrigo. O Henrique não vinha so pois um outro colega de fuga também sem papeis estava com ele. O meu pai decide continuar a viagem ate à fronteira de Hendaye e poucos quilômetros antes o companheiro de viagem do Henrique é metido na mala do carro e o Henrique com o meu passaporte atravessa a fronteira francesa. Chegados a Bordéus, os dois rapazes são metidos no comboio para Paris e o meu pai regressa a Lisboa.
Para o Henrique serão 10 anos de exílio, de formação e de vida difícil apesar de a comunidade de refugiados Portugueses em Paris ser enorme particularmente no bairro latino e em certos cafés. Numa primeira fase Henrique foi hospedado em casa de uma tia avo Guina Szwarc, viuva de Marek Szwarc pintor e escultor da escola de Paris, que vivia na Cité des Fleurs no 65 Boulevard Arago.
Guina e Marek eram os pais de Tereska Torres (ver…….) cujo retrato pode ser visto aqui. Tereska casou-se com George Torres em 1944 que morreu na altura do desembarque aliado, e de quem teve uma filha Dominique que ajudou o Henrique a integrar-se na sociedade francesa.
Apesar de os meus pais contribuirem financeiramente para a vida de Henrique em Paris, o que eles enviavam não chegava para tudo tanto mais que a dado passo Henrique decidiu alugar um apartamento a meias com um colega. Viveu durante os anos no 25 Jean de Beauvais 3° ao pé da Rue des Ecoles, por cima de um café.
O portão de entrada do 65 Boulevard Arago.
E o atelier de Marek e Guina:
E o 21 Rue Jean de Beauvais 3° andar, Paris III.
Mas o aspecto financeiro era o mais complicado como revela esta carta dirigida a mim em Lisboa em Outubro de 1964.
A testemunhar das dificuldades da vida em Paris, veja-se esta carta do José Nepomuceno dirigida à tia (carta também interceptada pela PIDE) na qual menciona o custo dos apartamentos e a dificuldade de estudar.
A 25 de Janeiro de 1965, o jornal Le Monde publica uma noticia que relata a tentativa de suicídio de Fernando Baeta Neves que fazia parte da Direção da Associação Académica da Faculdade de Direito.
No próprio dia o Henrique e o José Nepomuceno escrevem uma carta aos pais de Fernando, carta essa que é interceptada pela PIDE.
Nos arquivos da Camara Municipal de Lisboa aparece uma nota datada de Março 1965 sobre os estudantes presos, que indica que Baeta Neves foi restituído à liberdade mediante uma caução.
O correspondente do jornal Times em Lisboa publica no dia 28 de Janeiro de 1965 a seguinte noticia.
Apesar das mesadas que o meu pai lhe enviava, o Henrique teve que arranjar um emprego ou como recepcionista no Hotel Hilton do aeroporto de Orly ou como na Sorbonne.
Instalado em Paris, Henrique inscreve-se na Sorbonne e no Institut d’Etudes Politiques e a partir de 1971 recebe uma bolsa do governo francês.
Em 1974 Henrique recebe uma Carte de Séjour:
Em Julho de 1969, toda a família se encontra em Paris para celebrar o meu casamento com a Elisabeth.
Em Julho de 1969 Henrique recebe o diploma do Institut d’Etudes Politiques correspondant aux années 64-69.
O jornal Le Monde publica a lista de todos os alunos que tinham recebido o diploma de l’Institut d’Etudes Politiques. O nome de Henrique aparece na seção Economia Publica e o nome de Fabius, futuro Primeiro Ministro de França, na seção Serviço Publico.
No ano seguinte Henrique escreve uma carta aos pais (Junho de 1970), interceptada pela PIDE, na qual diz que nada consta relativamente à naturalização francesa. O facto é que apesar de ter residido 10 anos em França, o Henrique nunca conseguiu obter a nacionalidade Francesa
Regresso a Portugal
Em Maio 1974, o Henrique munido de um passaporte emitido pelo Consulado de Portugal em Paris no qual é descrito como operário, regressa a Portugal.
No período 1976-1977 trabalhou como assessor de Manuel Gomes Guerreiro, eminente especialista em silvicultura e ecologia que foi Secretário de Estado do Ambiente no primeiro governo constitucional português. Nesse período Henrique trabalhou também para a Universidade de Évora, Universidade Nova de Lisboa e Instituto Superior Técnico e para o Ministério do Trabalho e Segurança Social.
Durante uns tempos o Henrique viveu com uma rapariga que se chamava Fernanda e que era viuva de um piloto das guerras do ultramar. Não sei qual a razão, o facto é que o Henrique tinha um feitio muito especial o que tivesse levado a Fernanda a deixa-lo.
Em 1987-88, Henrique obteve um diploma de Mestre em Gestão pela Universidade de Alcala de Henares.
Em 1978, ja com os problemas da família resolvidos, decidimos todos ir passar o Natal na praia de Varela no norte da Guiné onde tínhamos passado como crianças os melhores tempos da nossa vida. O Henrique juntou-se a nós e acampámos na praia.
A vida do Henrique em Lisboa depois do regresso de Paris, e até à morte do nosso pai Artur em 1984, foi sempre muito recatada. Sabíamos da vida dele por outras pessoas como a Magui ou o Joao Guerreiro, pois ele pouco dizia quando estava em casa da minha mãe. Convém dizer que a certa altura os meus pais conseguiram comprar um andar em Paço de Arcos tendo a casa da Augusto Gil ficado para o Henrique.
Comigo fora de Portugal ou em Genebra ou em Paris, o Henrique que continuava a nada relatar sobre a vida e saude dele, ia todos os domingos almoçar com a minha mãe. Apesar dos esforços da minha mãe para tentar extrair algo da vida dele, o Henrique « chutava para canto » e fazia uma piada. Mesmo quando os problemas de saude do Henrique começaram a ficar muito sérios ele nada disse à minha mãe para evitar que ela ficasse preocupada. Um dos raros prazeres do Henrique em casa da minha mãe era comentar com o nosso irmão Carlos quando ele la aparecia de férias ou em viagem, as proezas respectivas do Sporting e do Benfica. O Carlos era doente do Sporting e o Henrique so para contradizer o Carlos , dizia-se adepto do Benfica.
Algumas fotografias dos anos 2012 e 2013 em casa da minha mãe Clara:
E finalmente quando dos centésimo aniversario da minha mãe Clara em 14 de Fevereiro de 2014
Retrospectivamente o Henrique tinha certos aspectos do comportamento que poderiam fazer pensar que ele era um pouco autista, pois parecia ter a necessidade de isolamento social, timidez excessiva e apego à rotina. Nunca poderei esquecer o momento em que ele teve que informar a nossa mãe Clara que o Carlos o nosso irmão mais pequeno acabava de falecer no hospital. Estávamos os dois com ela mas competiu-lhe a ele, por ser mais velho, anunciar a morte do Carlos. So conseguiu dizer « O Carlos foi-se embora »
Desde o regresso a Lisboa, o Henrique continuou sempre a viver em Lisboa na Rua Augusto Gil 37, 3°.
No entanto por razoes que tem a ver com a necessidade de se isolar, levaram o Henrique até a uma pequena vila chamada Casas da Ribeira perto de Mação onde comprou uma pequena casa com uma vista magnifica sobre o campo. O isolamento era total mesmo com televisão e internet pois a terra onde ele passava muito tempo nem sequer tinha uma padaria ou um café.
Aqui vão algumas fotografias deste pequeno paraíso na Rua do Sarrinho 55, Casas da Ribeira:
Como economista com sérias preocupações de cariz ecológico Henrique publicou um certo numero de trabalhos incluindo :
1. Perspectivas Ecológicas em Economia
2. Um dia a economia será a ecologia
3. A Economia dos Serviços
4. Energia, Geopolitica e a Politica da Biosfera
5. Os recursos naturais na era da globalização
6. Tres axiomas da economia ecologica
7. Desenvolvimento sustentável local: caminhos de relocalização.
O Henrique, que dos três irmãos era o único com capacidades literárias, teve sempre muito jeito para escrever a tal ponto que quando da publicação do pequeno livro de contos « O Cativeiro dos Bichos », da autoria do nosso pai, escrito durante a «estadia» dele na prisão de Caxias, foi o Henrique que escreveu o prefácio que aqui vai:
« Era uma vez... 25 histórias que um escritor foi contando ao longo da sua vida, mas que vieram a ser publicadas em livro só bastante mais tarde, muitos anos após a sua morte. Ao fim e ao cabo, duas dezenas e mais cinco contos de literatura, que por serem apenas isso jamais ocorreram, não se passaram em lado nenhum, sendo pois uma utopia, uma ilusão da arte da escrita!
Os textos reflectem uma grande diversidade temática, um indício de que estaremos perante momentos diferentes e muito afastados no tempo da produção literária do autor. Não deixa, aliás, de ser uma circunstância afortunada que só um dos textos possa ser rigorosamente datado, pelo facto fortuito de não ser inédito. Num registo mais profundo, encontramos sob essa diversidade algo que é comum a todas as histórias que se apresentam e que podemos qualificar como o espanto do escritor face as permanentes manifestações contraditórias do espírito e da vontade dos homens, capazes das vilezas maiores e, ao mesmo tempo, dos gestos mais nobres e mais corajosos. E como isso era, para ele, não propriamente ilógico, mas misterioso e perturbador, no plano dos juízos de valor!
Na sua dimensão narrativa, cada um dos contos reporta-se a um momento e a um local precisos, mesmo se esse momento e se esse local são exteriores ao tempo e ao espaço abstractos da descrição dos factos. Em especial, são exteriores ao tempo e ao espaço dos textos alegóricos, quando os bichos se puseram a falar numa linguagem só por eles bem entendida, por os homens terem sido privados da liberdade de pensamento e da paz social. Mais, por efeito de uma força do mal, que insidiosamente a tudo e a todos se sobrepunha, não ousavam sequer conversar da forma simples e descuidada, como por exemplo se fala em família, ou numa roda de amigos. Não podiam expressar os seus pensamentos mais íntimos sem serem logo atravessados por tremores irreprimíveis e, enquanto artistas e poetas, tinham o medo compreensível de contar os seus sonhos mais belos e mais loucos.
Eram, pois, os pássaros e os peixes e os outros animais da criação que em vez deles discorriam, se bem que à cautela o fizessem socorrendo-se de maneiras astuciosas de exprimir as suas ideias... Faziam-no, porém, sempre num tom prazenteiro, não fossem a afabilidade e a alegria as marcas irrefutáveis do caracter das almas simples!
Antes de prosseguir e para uma cabal elucidação das razões que me trazem aqui, permitam-me que ponha alguma ordem neste meu discurso, para ajustá-lo ao que, por definição, deve ser o verdadeiro objecto de um prefácio: o conto - e nisto ele distingue-se do romance, como género literário, - tende a suprimir o Tempo e o Espaço dentro de si, ou seja enquanto modo de narração. Fá-lo para, dessa maneira, poder pairar com mais consistência sobre aquilo que o rodeia, enquanto pura significação moral, embora esta surja neste caso de uma forma encapotada. O que nos deixa a nós a tarefa, no fundo divertida, mas por vezes de resultados imprevistos e nada tranquilizadores, de a descodificar, para tal recorrendo ao habitual método interpretativo, a partir da identificação do contexto.
Como todos sabemos, o contexto possui determinadas propriedades únicas, em contraposição às propriedades dos factos narrados, como seja uma duração e uma extensão, que são consideradas por muitos como de ordem física, o que quer dizer que serão pura e simplesmente irrevogáveis.
Eu, pelo que me cabe e sem pretender desviar-me um milímetro que seja da linha de argumentação aqui apresentada, posso acrescentar que o contexto da narração - essas tais duração e extensão físicas - são a própria vida do escritor, as suas andanças pelo mundo, os seus amores ocasionais e permanentes, os encontros sucedidos, as descobertas feitas, que não raro o terão deixado surpreendido, curioso, maravilhado mesmo. Ou, entrando agora no lado obscuro que existe em tudo o que é humano, também os caminhos que, sem qualquer lógica, lhe foram em algumas ocasiões desaconselhados, ou mesmo absurdamente proibidos, os locais e os seres que num rápido instante se lhe tornaram inacessíveis: nesses momentos, podemos dizer que nele cresciam o desejo de ser absolutamente livre e o poder de viajar perpetuamente através do espírito, de conhecer pela imaginação e de muitíssimo amar na distância…
De vários modos, com maior ou menor evidência, as histórias deste livro remetem-nos para esse contexto, numa relação que é, contudo, mais de ordem metafórica do que autobiográfica. Na verdade, elas não cessam de o invocar com certa subtileza, com sentidos segundos e legítimas precauções, não fosse o Diabo tecê-las... Como, de resto, convinha à época da sua concepção, um tempo já bem distanciado de nós, a ponto de lhe estranharmos os usos e costumes e as maneiras de dizer as coisas ou mesmo.de termos já começado a esquecê-lo.
Isto exactamente na medida em que, por um capricho inesperado dos deuses, o autor percorre o caminho oposto e se aproxima dos seus leitores. Libertando-se desse tempo, julgo eu que com um sorriso nos lábios, no seu andar pesado e firme, preparando-se com a serena confiança que em tudo tem por hábito depositar para nos contar, como se fosse apenas um velho amigo, acabado de regressar de uma longa viagem, algumas histórias da sua invenção, para nosso prazer e, por que não, também dele.
Entender-se-á agora melhor o motivo da minha presença nesta espécie de antecâmara da ficção que é o prefácio de uma obra literária: é que tendo os fados ordenado um encontro do escritor com os seus leitores, foi-me atribuído o clássico papel de mestre cerimónias! Precisamente a mim, que por feitio sou pessoa desleixada, um pouco distraída e ignorante de tudo o que respeita à etiqueta, as precedências e outros rituais de convivência humana...
Seja, mas que tal não me impeça então de ditar as minhas condições!
Para iniciar e com a autoridade recente de que fui Investido, desde já estabeleço que esse evento extraordinário tique com a data ajustada para o dia de Natal! Não é que eu pretenda com esta minha decisão passar por cima de inúmeras objeções que, aliás, saltam à vista: que não é o momento mais apropriado, por o Natal ser o dia da família e momento mais apropriado, por o Natal ser o dia da família e não da participação em actos mundanos e, muito menos, em eventos literários. Que ele está vocacionado sobretudo para o repouso da mente, as pessoas aproveitando a quadra para se alhearem das suas obrigações sociais, ocupando o seu tempo, por exemplo, a folhear mecanicamente velhos álbuns de fotografias, acompanhando na televisão a missa papal, trocando presentes e enviando votos de festas felizes ou mesmo passeando sem rumo definido. Que não é a altura indicada para se dar atenção às manifestações do espírito profano, as quais mesmo parecendo que não exigem sempre o dispêndio de alguma energia psíquica, pelo menos para "não se perder o fio à meada...". Resumindo, que há várias outras ocasiões mais propícias a essa maneira de utilizar os tempos livres, como é o caso dos fins de tarde ou das noites de semana do resto do ano!
E claro que todas estas objeções, eu conheço-as bem! Direi até que já as antecipava, se bem que com toda a franqueza não pense que elas tenham neste caso a menor relevância.
No fundo, o que quero dizer com a escolha do Natal é somente isto: Natal é quando alguém nasce, Natal é portanto qualquer momento do Tempo, o presente eterno donde nunca
saímos. Optar pelo Natal significa, pois, na prática, eleger cada instante da Vida ou, no que vem dar exactamente ao mesmo, é seleccionar todos os momentos deste Mundo!
Resolvida e arrumada de vez a questão do momento, estamos agora em condições de poder atacar a segunda questão, que é logicamente a do local adequado (do sítio legítimo, se se pode dizer!) para servir de palco ao acontecimento em gestação.
Atrevo-me antes de mais nada a opinar que o encontro predestinado do narrador destes contos connosco não faria grande sentido se tivesse que ter lugar dentro de quatro paredes. No meu modesto entender, ele perderia uma boa parte da sua razão se fosse previsto para um recinto fechado, daqueles que propositadamente se constrói para albergar esta espécie de iniciativas e a que correntemente se chama centros culturais! Quanto a mim, ele convida pelo contrário a um enquadramento mais ligado à terra nua, que só poderá ser o de uma reunião a céu aberto. Imagino para esse efeito o cenário seguinte: uma noite de lua cheia, uma roda de amigos, uns deitados de bruços, a cabeça ligeiramente erguida, outros apoiados nos calcanhares, ou sentados de pernas cruzadas, conforme os seus gestos ancestrais. E tendo, ao centro, ateada uma grande fogueira, cuja justificação reside mais no estranho magnetismo que o fogo exerce sobre nós do que numa qualquer função prática.
É um cenário que - ninguém poderá negá-lo - tem desde sempre sido um estímulo poderoso à comunhão dos espíritos no respeito pela individualidade própria de cada um!
Arquitectar as linhas mestras de um cenário não é, porém, o mesmo que apontar um local em concreto. Pois bem, para ele o que não falta são candidaturas, todas elas igualmente legitimas e não destituídas de argumentos em seu apoio!
A primeira proposta tem a seu favor razões acima de tudo de ordem estética. Ela consiste em aprazar-se o encontro para um local plano e ermo, situado logo à saída do pequeno burgo de Maçãs de Dom Fafe, lá para as bandas de Terras do Bouro, em pleno Minho português. E um local que tenho a felicidade de conhecer bem e que não me canso de admirar sempre que por lá passo a caminho da Caniçada e de Salamonde: tem como anfiteatro natural, bem ao fundo, a belíssima serra do Gerês, merecedora a mais do que um título do estatuto de área protegida, para o que, diga-se de passagem, em muito contribuiu a militância infatigável das grandes famílias de Maçãs de Dom Fafe em defesa dos valores paisagísticos da sua terra. De resto, uma delas pode dar a este livro uma das suas personagens mais sublimes, o senhor António Bouças, um homem que se notabilizou por ter sido Deus, se bem que somente durante algumas horas!
As areias da praia da Nazaré, no prolongamento para o sul, logo depois do porto de abrigo e do desaguar do rio, são também uma séria candidata. A sua escolha teria um valor essencialmente afectivo, dado que a vila da Nazaré está muito ligada à história pessoal do narrador, em especial no período que antecedeu o retorno à Africa da sua inocência.
Uma vantagem adicional desta opção estaria no facto de termos, como anfitrião, uma outra notável personagem deste livro: Zé Faneca, pescador, filho e pai de pescadores. Que com certeza, com todo o seu entusiasmo nos mostraria o seu mar, mar calmo, mar bravio, mas sempre o mar bonito da Nazaré. Para o contemplarmos e ficarmos comovidos!
Quebo, no sul da Guiné, na transição da savana para a floresta, chão de fulas, é outro dos grandes candidatos. Para quem não saiba, Quebo é a exuberância do mundo: exuberância da flora, exuberância da fauna, exuberância do verbo, lugar de mitos, a origem de tudo, a explicação de mistérios, o dilúvio e a salvação! Aí seríamos peregrinos, discípulos humildes por um breve tempo de Umaru Só, "velho para além de toda a idade", e ouviríamos da sua boca contada uma vez mais a história verídica do cativeiro dos bichos, que aconteceu depois do "tempo em que todos os seres viviam na mais perfeita harmonia e a paz reinava em toda a parte". Para lição nossa, ou não fosse Quebo terra da iniciação, espaço sagrado, biblioteca do mato, memória dos tempos e dos seres?
Três lugares possíveis e muitos outros ficam por mencionar.
Locais de montanha? O Tibete, os Pirinéus. Planícies? O pequeno Alentejo e a enorme Amazónia. Cidades, capitais, Roma, Lisboa, Joanesburgo. O mar frio da Terra Nova, os céus tórridos do Gana.
Basta-nos, no entanto, mudar a escala e num ápice tudo se equivale! A Terra é agora um pequeno ponto do Universo, todos os sítios são indistintos e em todo o lado realiza-se o encontro desejado. O narrador é o primeiro a lembrar-nos isso mesmo: "O eu deste livro está em dois ou três locais ao mesmo tempo". Do mesmo modo que a questão do momento, também não tem qualquer importância a questão do local.
Que é qualquer um e será todos eles!
Há um assunto de que não me ocuparei. Aliás, ele diz respeito ao editor do livro e não à minha pessoa. Refiro-me à estafada questão dos convites, de quem deve ser convocado para estar presente: representantes disto e daquilo, notáveis, escritores, crítica, comunicação social….
Não é que esteja a querer fugir às responsabilidades, dando rédea livre a uma propensão inata em mim para o "não te rales, que tudo se há de compor"! Mas, de facto, não convém confundir um encontro etéreo de almas gémeas a ter lugar à margem do tempo e do espaço físicos - que é do que se trata aqui, no fundo! - com uma prosaica sessão de lançamento de mais um livro, com apresentador encartado, pedidos de autógrafo, cumprimentos, risinhos, parabéns por esta ou outra razão ou mesmo sem razão alguma, à mistura com algum enfado e a inevitável maledicência!
Tanto quanto posso entender, a questão colocada é outra.
Na realidade, e como ele próprio o reconhece, o narrador deste contos não possui uma existência aparte: "eu não existo", afirma dele em certa altura, com toda a tranquilidade e lucidez!| Transforma-se, com efeito, o narrador na própria substância narrada ou, sendo um tudo menos polémicos nas nossas afirmações ele só existe através das suas personagens, ele é as suas personagens, cada uma delas e também todas elas em conjunto!
São, por este motivo, elas - e não ele - que brotam da escuridão e vêm ao encontro do seu destino: o tempo em que vagueavam como almas perdidas aproxima-se agora do fim. Como não podia deixar de ser, descem por um raio de sol, que as ilumina na noite, e vão, uma após a outra, tomar o seu lugar na história e na ficção!
Eis, pois, a abrir o caminho, Apolinário dos Santos, barbeiro, Eis, pois, a abrir o caminho, Apolinário dos Santos, barbeiro, e atrás dele Fernando Caeiro, natural de Beja, o último viajante num mundo cheio de turistas, Zeferino José dos Santos, ajudante do registo civil e "propenso à organização de manifestações fúnebres", Atanásio de Deus Tavares, regedor da terra de João Ninguém e primo do escritor, o tio Malaquias, cocheiro nas Caldas da Rainha, que apenas trabalhava o suficiente para viver e não para enriquecer.
Eis Raimundo Esteves, maníaco até mais não do tempo exacto e que acabou por endoidecer no meio da neblina de Londres, eis o próprio Diabo, comerciante arruinado, com escritório de transacções aberto na Praça dos Restauradores, em Lisboa. Eis muitas outras personagens: Dona Maria dos Prazeres de Figueiredo, senhora da moda, uma mulher tout à fait à la page, o Dr. Sousa, professor de história num qualquer liceu da província, o crítico literário da revista Tempos Novos, que um dia foi ludibriado por um cérebro electrónico.
Eis o administrador geral das matas da Guiné e logo após dois professores universitários em discussão animada sobre os enigmas da mente humana. Um deles é etnógrafo europeu, o outro é africano e sociólogo.
Eis Manolo o espanhol, mais precisamente um andaluz, republicano, marxista-leninista, que acreditava em fantasmas e Benito Salvatore, natural de Nápoles, principe di Carmana, cujo pai caçava comunistas, enquanto a mãe orava pela alma dessa gente ímpia.
Eis os bichos miúdos e graúdos em que o narrador também se metamorfoseou: uma garça chamada Macute, que perverteu o mundo, a águia real, o colibri e os papagaios, búfalos, macacos, grilos, melros, chimpanzés, o Saninho de Rabo-Pelado, famoso roedor de chabéu e fundador de um centro recreativo-cultural-desportivo "à semelhança daqueles que o bicho homem possui", manguços, cágados, onças, elefantes e muitos, muitos mais!
A fechar a série imensa de homens e bichos, eis Tcherno Rachid, filósofo e mestre da lei corânica. A todos ele saúda longamente e repete-nos as palavras do Profeta: "Nenhum homem é superior a outro senão pela sua piedade »!
Como se vê, tudo ao fim e ao cabo se compõe por si. Sendo assim, só me resta dar por terminada a mediação: a ficção está aí, à vossa frente!
Henrique Schwarz
O Henrique compareceu na cerimónia de homenagem ao Carlos que teve lugar na Fundação Mario Soares em Lisboa a 7 de Março de 2014 e em Bissau, Guiné organizada pela associação Acção para o Desenvolvimento a 18 de Março de 2014.
A certa altura o Henrique começou a ser tratado mais seriamente com estadias no Hospital Curry Cabral e Sao José. Subir as escadas do prédio dele até ao terceiro andar começaram a constituir um problema, que foi resolvido com a ida dele para a casa da Catarina, nossa sobrinha. A ambulância ia la busca-lo para as sessões de quimioterapia no Hospital Sao José e foi assim que ja muito cansado o Henrique veio a falecer no Hospital, no dia 15 de Julho de 2017. As cinzas do Henrique foram levadas para a Guiné onde ele repousa na campa dos meus pais e do meu irmão Carlos.
Em 2017 teve lugar uma homenagem ao Henrique a quem foi atribuído o Prémio Carreira 2017