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sábado, 14 de fevereiro de 2026

Des Gens Intéressants

 


Pourquoi ce blog - João Schwarz da Silva

Il y a quelques années, l'âge venant, et avant que leur mémoire soit effacée j'ai eu envie de retracer la vie d'un certain nombre de gens de ma famille ayant vécu des moments difficiles ou passionnants. Plus personne n'est de ce monde. Ce qui les caractérisent tous c'est le fait qu'ils ont été, à des degrés divers,  victimes soit de leurs croyances, soit de leur positionnement politique ou tout simplement de leur soif de liberté. Ils ont vécu les crises et les guerres de l'époque, et très souvent ont du s'exiler pour trouver un monde meilleur.

Mon arrière grand-père Ysucher Szwarc est mort à Zgierz lors de l'invasion nazi de la Pologne en Décembre 1939. Ysucher eu de son mariage avec Sara (Salomeia) onze enfants.
Mon autre arrière grand-père Samuel Matusovitch Barbash fut fusillé par les bolcheviques lors de la prise de Odessa en 1920. Samuel eu de son mariage avec Klara deux fils et deux filles. 
Un de ses fils Boris Barbash après des études à Bruxelles et des visites en Europe et en Palestine est parti à Shanghai après la première guerre mondiale ou il est mort.
Mon grand-père Samuel Schwarz a été l'objet d'un antisémitisme bon teint qui avait cours au Portugal et cela n'empêcha pas de faire des découvertes sensationnelles concernant l'histoire et le patrimoine juif du Portugal. 
Mon père Artur Augusto Silva fut emprisonné de par ses idées contraires à celles du regime en vigueur au Portugal.  Il avait osé défendre des "terroristes" à Bissau dans l'ex Guiné Portugaise. Les membres de sa famille sont originaires  de l'Ile de Madère et furent expulsés  à l'Ile de Brava à une époque ou le fait d'avoir des esclaves était normal. 
Son frère Joao Augusto Silva fut un formidable photographe, dessinateur et écrivain. 
David Szwarc fils d'un frère de mon grand-père Samuel put s'échapper du ghetto de Varsovie alors que sa famille y est restée. 
Un oncle Alexandre Szwarc frère de Samuel,  fut fait prisonnier par les russes en 1940 et put s'échapper en passant par le Portugal pour ensuite aller au Canada. Parmi les membres de la famille de Alexandre, il faut mentionner tout particulièrement sa fille Maria Violusia Seeman qui fut interviewé par Ines Brandao dans le cadre du programme "Memoria dos Exilios". 
Mon beau-père Jean Roger Chansel qui fut pilote de l'aéropostale a trouvé la mort dans un accident au Mont Cameroun en 1953. 
Marek Szwarc, un des frères de mon grand-père, juif à la naissance, se convertit au catholicisme  et est devenu un peintre et sculpteur de l'Ecole de Paris. 
Tereska Torres la fille de Marek a du fuir Paris au moment de l'invasion de la France par les nazis en 1940, et fut une des premières femmes à rejoindre le Général De Gaule à Londres.  
Le tout dernier mais d'autres suivront, est mon frère Carlos qui né à Bissau et y ayant vécu toute sa jeunesse, est revenu en Guiné au moment de l'indépendance pour s'y installer et y contribuer au nouveau monde pensé par Amilcar Cabral. 

Au fur et à mesure que  je trouverais le temps de trouver les documents, photos et autres bouts d’histoire, d'autres personnages viendront habiter ce blog. 

Pour accompagner ce blog voir les liens suivants:

Voici quelques vidéos prises à des moments différents mas qui ont pour thème commun soit un des membres de la famille soit un site (Belmonte ou Tomar) qui s’integre parfaitement dans la vie de Samuel Schwarz.

Antes da apresentação dos videos, duas emissões de radio que tiveram lugar em 2015 e 2016. A primeira das emissões teve lugar na sequência da apresentação do livro de Samuel Schwarz “La Découverte des Marranes” em 2015 em Paris. A entrevista em francês de Livia Parnes et João Schwarz foi feita por Ariel Sion da Radio Judaica em Paris.

Emissão sobre Samuel Schwarz

A segunda emissão teve por objecto a familia de Samuel Matusovitch Barbash e teve lugar em Janeiro de 2016. A entrevista em francês de João Schwarz foi realizada por Ariel Sion de Radio Judaica em Paris.

Emissão sobre Samuel Matusovitch Barbash 

Presentation du livre “La Découverte des Marranes” au Musée d’Art et d'Histoire du Judaïsme de Paris le 18 Fevrier 2016

https://www.mahj.org/fr/media/quand-le-portugal-redecouvre-ses-marranes

Entrevista de Clara Schwarz, José Melo e Antonieta Garcia sobre a vida e obra de Samuel Schwarz. Filme realizado pela Comunidade Israelita de Lisboa em 2004

Entrevista de Clara Schwarz por Jose Melo e Antonieta Garcia

Musica Klezmer na casa de Clara Schwarz da Silva em São Martinho do Porto 

https://www.youtube.com/watch?v=Kl4RWav1NdQ&t=2s

La communauté marrane de Belmonte au Portugal par João Schwarz 

https://www.youtube.com/watch?v=xCJWe8ZPjfM&t=1s

Entrevista de João Schwarz sobre a doação da familia ao Tikva Museu Judaico de Lisboa

Entrevista de João Schwarz para o Museu Judaico de Lisboa

La ville de Tomar, sa synagogue et son histoire par Samuel et João Schwarz. Film de Livia Parnes 

https://www.youtube.com/watch?v=UnqmXYvRiJk&t=7s

Samuel Schwarz - O Descobridor dos judeus de Belmonte 

https://www.youtube.com/watch?v=JdLieK2fJ_M&t=1s

Visita ao Museu de Belmonte

Visita ao Museu Judaico de Belmonte

Publicação do livro “Orações Criptojudaicas”

Publicação do livro sobre Orações Cripto-Judaicas

Entrevista de Clara Schwarz por Esther Musznik

Clara Schwarz entrevistada por Esther Musznik

Visita Guiada à Sinagoga de Tomar, em Tomar - Portugal por Maria José Ferro Tavares

https://www.youtube.com/watch?v=s6YuKpOoDzw&t=1s

Memórias de Clara Schwarz entrevistada pelo João em São Martinho do Porto (1)

Memorias de Clara Schwarz parte 1

Memórias de Clara Schwarz entrevistada pelo João em São Martinho do Porto (2)

 https://www.youtube.com/watch?v=hEIcBpJS9_o

Memórias de Clara Schwarz entrevistada pelo João em São Martinho do Porto (3)

 https://www.youtube.com/watch?v=KPoouWzArlc

A biblioteca de Samuel Schwarz (Universidade Nova)

https://www.youtube.com/watch?v=XYSZIUEdf9Q&t=22s

Eu lembro-me (Espaço Memória dos Exílios) Entrevista de João Schwarz por Ines Brandão

Espaço Memoria dos Exilios

Eu lembro-me (Espaço Memória dos Exílios). Entrevista de Mary Violusia Seeman por Ines Brandão:

https://www.youtube-nocookie.com/embed/Zre3qKpRTBs

Dans le cadre des émissions de ARTE sur l'Initiation au voyage voici une émission sur Tomar, Belmonte et  l'histoire juive du Portugal


A l'occasion de l'inauguration de l'exposition des éditions Chandeigne sur la Diaspora Juive Portugaise qui a eu lieu le 8 Décembre 2023 a la Synagogue de Tomar voici un enregistrement video fait par João Schwarz

Inauguration de l'exposition à Tomar


Emission à la Radio Télévision Suisse le 2 Novembre 2025. Interview de Livia Parnes sur les derniers crypto-juifs du Portugal

Vida e obra de Artur Augusto Silva

O meu pai Artur Augusto Silva teve uma vida extremamente interessante como poeta, escritor, historiador, jurista, advogado, especialista de direito consuetudinário, prisioneiro da PIDE e pai de família. As origens da família do lado do meu pai situam-se na Madeira e em Cabo Verde. Dai a minha vontade de tentar esclarecer quem eram os antepassados do meu pai e onde viviam. Neste blog alem desta pagina sobre o meu pai, o leitor poderá encontrar inúmeros artigos sobre estes antepassados, sobre a escravatura em Cabo Verde e sobre pessoas próximas da família. 

Recomendo para quem não  tiver tempo de ir mais alem, a leitura deste site:

http://www.lirecapvert.org/artur-augustoalias-julia-correia-da-silva1912-1983.html


Os diversos artigos associados à vida e obra de Artur Augusto Silva estão disponíveis aqui:

1. Ensaio de compreensão da escultura Nalu

2. Um conto de Natal

3. Chamava-se Maria

4. Comentario sobre os Usos e Costumes dos Fulas por Beja Santos

5. A escravatura em Cabo Verde - os meus antepassados

6. Genealogia da Familia Medina da Ilha da Madeira


A Ilha da Brava fica a esquerda da Ilha do Fogo


Artur Augusto da Silva nasceu em Nova Sintra, na Ilha da Brava, Cabo Verde no dia 14 de Outubro de 1912 e faleceu em Bissau a 11 de Julho de 1983.

Mapa da Brava de 1891
Mapa de Cabo Verde datado de 1726 extraido da obra de George Roberts
Capa do livro de viagens de George Roberts


Certidão de nascimento de Artur Augusto Silva


Da esquerda para a direita Cristina (nasceu em 1904), Artur (nasceu em 1912), Henrique e Margarida (os pais) e João (nasceu em 1910)


Retratos de Margarida e Henrique (os pais de Artur)

Fotografias do Artur com o irmão João



João o irmão de Artur num trabalho de Eduardo Malta:



As origens da família vêem da Ilha da Madeira:


Viveram nesta casa em Nova Sintra na Ilha da Brava:


O pai faleceu no dia 9 de Dezembro de 1925 em Lisboa no No 134 , 3r andar da Avenida 5 de Outubro da freguesia de São Sebastião da Pedreira, onde se encontrava para tratamentos. 


Deixava a esposa de 50 anos de idade e dois filhos menores (João e Artur)  que foram viver para casa da irmã Cristina em Lisboa. Cristina tinha casado com o médico Augusto Pereira Brandão que na altura trabalhava em Farim (Guiné).


Ilha da Brava vista da Ilha do Fogo

A chegada ao porto de cais (Porto da Furna) da Brava 


Paços do Conselho de Nova Sintra, capital da Ilha da Brava


Telas de Nicolau Ferreira pintor madeirense, pintadas em 1793 que se encontram na Igreja de Nova Sintra onde foi baptizado Artur Augusto Silva 



Vista parcial de Nova Sintra 

 

Do outro lado da Ilha da Brava ao pé do antigo Aeroporto 

 

Pista do Aeroporto no qual nenhum avião aterra agora 


Vista de Fajã de Agua no outro lado da Ilha Brava ao pé do aeroporto 


De Nova Sintra até ao cais de embarque da Furna para a Ilha do Fogo 


Vista do vulcão da Ilha do Fogo

 

Frequentou em Lisboa o Liceu Passos Manuel e fez os dois últimos anos do Liceu, no Liceu Camões.

 


No Liceu Camões animava regularmente as actividades da Associação Académica onde foi colega de Álvaro Cunhal:


Em Abril de 1929, ja confirmado como escritor, poeta e jornalista, publica um conto e uma critica da exposição de Alda e José Pereira que teve lugar no Salão Bobone:


Publica também uma critica ao livro recém-publicado sobre Fernão de Magalhães, da autoria de Stefan Zweig:

Em Março e Abril 1933, publica uma critica ao governo e uma opinião sobre Camões e a Infanta D. Maria:





Ainda estudante foi Director da revista “Momento”, réplica lisboeta da  “Presença” de Coimbra, onde se propunha, com outros literatos jovens tais como Jose Augusto e Marques Matias, abrir uma “Tribuna Livre” em que livremente se discutisse e todos pudessem falar.  Momento foi uma revista Luso-Brasileira de Arte, Cultura e Critica, publicada entre 1933 e 1937. 


Uma serie de controversas animam os rapazes da Momento. Esta animaçao é bem retratada num artigo intitulado "Fernando Pessoa caricaturado presencialmente por Antonio Teixeira Cabral” da autoria de Natalia Hovorkova publicado em 2017.


Em Janeiro de 1934 Momento publica uma Carta Aberta aos Imortais:


Em Janeiro de 1934 Artur publica uma critica do livro “Meu Amor Pequenino”, acabado de publicar, da autoria de António Botto:

Num dos primeiros números da Momento em Novembro 1934, Artur publica um manifesto contra os Modernistas que lhe valeu uma critica cerrada de uns e elogios de muitos mais:


As edições Momento conseguem atrair o que de melhor se fez em Portugal:

A publicação do manifesto deu lugar a uma troca de galhardetes com diversos escritores, dos quais este é um exemplo. Trata-se de um artigo da autoria de Azinhal Abelho publicado no semanário literário “Fradique” cujo o director era Ribeiro Colaço:


A resposta de Artur publicada na Fradique não se fez esperar . Note-se que o Director do Fradique publicou a resposta  mas teve a “gentileza” de publicar uma parte de pernas para o ar.


Veja-se o prédio no numero 20 da Rua Carlos José Barreiros, onde viveu Artur:


Foi como director da revista Momento que Artur Augusto acompanhou o funeral de Fernando Pessoa em 1935. Possivelmente a única fotografia tirada nessa altura, mostra Artur à direita da fotografia ligeiramente encoberto por outro participante:

Interessante é notar a noticia do Diario de Noticias sobre a morte de Fernando Pessoa:

Publicou vários livros, fez reportagens, dirigiu saraus literários, organizou exposições de arte moderna, promoveu conferencias culturais na Casa da Imprensa, na Sociedade Nacional de Belas Artes e em vários outros locais de Portugal nomeadamente no Grémio Alentejano e no Porto:




Duas fotografias do grupo do Momento:


Ainda em 1934, Artur publica na revista Seara Nova um artigo sobre Antonio José da Silva celebre cristao novo nascido no Brasil:

Segue-se uma critica de Alfredo Pimenta:

Em 1937, Artur publica por intermédio das ediçoes Momento, um trabalho sobre o pintor Antonio Soares intitulado Modernos Artistas Portugueses. Carregue aqui para obter este trabalho.

Sobre a literatura e a mocidade, é publicado na revista Seara Nova este artigo:



Uma das criticas ao livro Imagem:


De regresso de Angola, Artur publica o romance “A Grande Aventura” que merece boas criticas:

Artur publica “O Anel do Amor” em 1938.


A narraçao da pena de morte dos algozes de Inês é feita por Artur Augusto do seguinte modo:

O livro foi acolhido com excelentes criticas:


Em 1934 Fernando Pessoa publica “Mensagem” e envia um exemplar a Artur Augusto com uma dedicatória. 

Na revista Momento, Artur publica em Abril 1935 o  poema “Da minha renuncia”. Fernando Pessoa a quem Artur tinha dedicado o livro  “Sensuais”, colaborou neste numero da Momento.

Como Redactor da Momento teve direito a este cartão :

Em 1933, as Ediçoes Momento publicam o livro “Sensuais/Helena Maria”,  com um prefacio de Artur Augusto. O livro foi apreendido por ordens do Estado Novo.



Redigiu um prefacio para o livro de poemas de Silva Bastos:


A pedido de Mario Fiuza escreveu um breve ensaio sobre a poesia Portuguesa: 


Em Fevereiro de 1936, Artur publica um artigo  sobre a arte:

Entre os variadíssimos colaboradores da revista Momento, estava João Augusto Silva, irmão de Artur, que publica em Abril 1937 uma pagina de memórias    

O mesmo João Augusto publicou um desenho no numero da Momento de Fevereiro de 1936:


Em 1937, Artur publica por intermedio das ediçoes Momento um retrato do pintor  Antonio Soares . Carregue aqui.

Durante a época da revista Momento as tertúlias literárias levavam por vezes a bilhetes de humor nos quais Artur demonstrava um talento particular:

Um dos colegas de Artur na Momento (José Augusto dos Santos) recebe em Abril 1937 uma merecida critica por um comportamento pouco recomendável:

A par das actividades da revista Momento, Artur lança com o pintôr Thomaz de Mello (Tom),  a revista de Arte “Cartaz”



Em Novembro 1936 “Cartaz” publica um artigo de Artur e outro sobre o livro de João Augusto Silva que tinha ganho o prémio da literatura colonial:


Contribuia activamente para a revista Cabo Verdiana “Claridade”:

Publicou nesta revista “O Sentido Heroico do Mar"


Em Abril de 1936 Artur publica na revista “O Mundo Português” o que foi provavelmente o seu primeiro conto "Abdulai o Caçador” no qual revela um pouco da sua infância em Farim . 

Algumas fotografias do periodo militar de Artur:


Em 1937 e 1938 participa em encontros com jornalistas e intelectuais brasileiros:

Nesse mesmos anos vai a Berlin, Paris e  Xauen (Xexuao) em Marrocos. Esta fotografia de Artur em frente da estatua do Kaiser Wilhelm 1 em Berlim é interessante porque a estatua e o palácio à volta foram  destruídos depois da segunda grande guerra pela Alemanha Democrática.

Aqui vai uma fotografia da praça onde esteve erguida a estatua.
E da estatua a ser destruida


Em Abril 1938, visita a cidade de Xauen ou Chaouen no norte de Marrocos nas montanhas do Rif e tira uma fotografia na praça Outa el Hammam.

E curioso ver como a mesma praça é vista hoje.

Licenciou-se em Direito em 1938 e em 1939 partiu para Angola onde trabalhou como Secretario do Governador Geral Manuel Marques Mano. 

Parte para Angola no paquete João Belo a 10 de Maio de 1939 e regressa a Lisboa no paquete Mouzinho no dia 5 de Setembro de 1940.


Durante a estadia em Luanda, acompanha o Governador ao interior e tem a possibilidade de fotografar o avião “Talvez”.

Nessa altura em Angola havia um ervanário muito conhecido que tinha poções capazes de curar vários males:

Pouco tempo antes de partir para Angola, Artur deu uma entrevista à “Ilustração de Angola”:

Nessa mesma altura publicou um artigo sobre Afonso de Albuquerque:

Durante a estadia de Artur em Angola é publicado o seguinte artigo que faz referencia aos "Caminhos do Mundo" acabado de publicar:

Como secretàrio do Governador Geral de Angola vai atè ao Congo Belga

Durante a estadia em Angola é-lhe atribuida uma licença de caça.


A PIDE acorda

O primeiro relatório da PIDE (nessa altura ainda era a PVDE) data de 22 de Junho de 1938. Segundo o agente trata-se de uma pessoa abertamente hostil ao Estado Novo.

Artur casou no dia 14 de Outubro de 1940 com Clara Schwarz.




Retrato de Clara (feito pelo pintor Luciano Santos) 

O casal a subir o Chiado



Numa festa:

Em 1941:

Depois de se casar,  Artur Augusto exerceu a advocacia em Lisboa, mas a convite de Luciano Santos, um amigo pintor decidiu mudar-se para Alcobaça onde havia falta de advogados.

Ai fez parte de um grupo de amigos que se reunia no atelier de Luciano Santos,  que na altura estava na ala sul do Mosteiro de Alcobaça. Esta fotografia mostra o Luciano a pintar numa rua de Alcobaça.

E aqui na nossa casa em Sao Martinho do Porto. Nesta fotografia aparece a Cristina irma do Artur e à direita o Luciano. 

Esse grupo de amigos incluía o médico pintor João Carlos Celestino Gomes, 


Em Abril 1944, Artur publica um ensaio sobre João Carlos:

O João Carlos era não so um médico-artista mas tambem um literato que escreveu imensos livros. Mostro aqui uma carta escrita em 1942, do Joao Carlos bem eloquente quanto ao estilo do autor.

Outro grande amigo dos meus pais era o escultor Pedro Anjos Teixeira cujas obras estão expostas no Museu de Sintra.


e  o engenheiro agrónomo Manuel Gomes Guerreiro que viria a ser o fundador da primeira universidade do Algarve.


Neste periodo diversos elementos de relatórios da PIDE mostram que só por pouco não foi preso. A 8 de Outubro de 1945 tem lugar no Centro Escolar “Almirante Reis” uma reunião de um grupo de democráticos que deu nascensa ao "Movimento de Unidade Democrática”, ilegalisado por Salazar em fins de 1947.

O Diário de Lisboa a 10 de Outubro de 1945 publica este artigo:


A 20 de Outubro de 1945 é publicada uma lista de escritores que aderem às 

decisões do Centro Almirante Reis.


A 11 de Dezembro de 1947, na altura em que vivia em Alcobaça,  faz parte da Comissão Executiva do  MUD para a região de Leiria.
Foi nesse ano que Artur e Clara  foram passear pela Europa:

O Artur em Paris:

O Artur no Egipto:

Ainda em Alcobaça em 1948, aqui vai uma fotografia da Clara com os filhos Henrique e João:

Em 1949, Artur é citado numa série de documentos da PIDE relativos a individuos suspeitos de pertencer ao Partido Comunista. Um deles é o Sr. Anibal Ferreira Dias de Abreu carteiro em Alcobaça que alega que foi Artur Silva que o convidou para ser membro do PC em 1947.


Não chegou a ser preso pois em 1948 ausentou-se para a Guiné. O documento da PIDE em que ele é considerado como membro do PCP é este:



Na realidade nessa altura sabendo que iria ser preso, colocou-se a questão de saber para onde ir. A irmã Cristina que tinha vivido em criança na Guiné, e que nessa altura  estava casada com o médico Augusto Pereira Brandão e vivia na Beira em Moçambique, aconselhou-o a ir para a Guiné pois dizia ela “O clima na Beira é muito pior que na Guiné”. A minha mãe Clara tambem era de opinião que a Guiné era um melhor destino pois se tivessem que voltar para trás, o caminho de regresso a Portugal era muito mais curto.


Em  1948, partiu para a Guiné (Bissau) para ali continuar a advocacia, com um sentimento pesado de frustração pela derrota politica, deixando para trás o Movimento de Unidade Democrática, desfeito, Leiria e Alcobaça,  a mulher e dois filhos que em 1949 se juntaram a ele.  

Na Biblioteca Nacional de França existe um exemplar do mapa da Guiné que data de 1760.
Outro mapa de 1690 mostra uma Guiné muito diferente:
Este mapa é de 1744

Não resisto a mostrar uma gravura inglesa de 1700 e tal que mostra o forte de Cacheu e a preparação de mandioca:

E uma planta de Bissau muito antiga que mostra a fortaleza da Amura e o Ilheu do Rei:

Mal chega a Bissau decide retomar a escrita de poemas. Aqui vão dois poemas que nunca chegaram a ser publicados:

E uma fabula:
A PSP nota a sua entrada na Provincia a 4 de Novembro 1948.

Participou activamente na campanha eleitoral de 1949 levada a cabo pela oposição, para a eleição do General Norton de Matos a Presidente da República. Em Dezembro 1949 nasce Carlos o terceiro filho de Artur e Clara. Em princípios de 1950 os três filhos pousam para a fotografia:



Foi também notário, substituto do Delegado do Procurador da República e membro do Centro de Estudos da Guiné, juntamente com Amílcar Cabral (ver o artigo de Carlos Schwarz sobre Amilcar Cabral neste blog) de quem era grande amigo. 


Amilcar Cabral foi um grande amigo de Artur e Clara. Amilcar Cabral publica em 1954 no Boletim Cultural da Guiné  um artigo sobre o Recenseamento Agricola da Guiné, que oferece ao Artur e à Clara com uma dedicatória.

Aqui vai uma fotografia de 1954 numa viagem a partir de Dakar de regresso a Bissau onde se vê Clara Schwarz, Maria Helena e Amilcar Cabral.

A proposito de Amilcar Cabral, nos arquivos da PIDE relativos a Artur aparece um relatório de um informador  da PIDE a quem a mãe de Amilcar Cabral, pede para transmitir uma carta a seu filho.

Artur e Amilcar eram membros do Centro de Estudos da Guiné Portuguesa:

Em Fevereiro de 1973, o então Ministério do Ultramar queixa-se que o New York Times tinha atribuído o assassinio de Amilcar Cabral, a Portugal.

Em Setembro 1950,  Artur foi convidado a participar nas comemorações do 1° Centenario do nascimento do poeta  Guerra Junqueiro.

Foi um dos fundadores do Colégio Liceu de Bissau (Liceu Honório Barreto) que no inicio a partir de 1949 ocupava umas salas do Museu da Guiné que tinha sido criado em 1947 num edifício na praça do Império junto ao Palácio do Governador.  Nessa altura e no estilo habitual para a época,  o governador Raimundo Serrão (julho 1952)  profere um discurso:

que é objecto de uma grandiosa manifestação e de uma multidão que reclama a presença do governador:

De 1949 a 1956, o liceu ocupou algumas salas do Museu. So a partir do inicio do ano lectivo 1956 é que o Instituto Liceal Honorio Barreto passou a poder contar com instalaçoes próprias.

 Fotografia Aerea de Bissau em 1953


Em Julho de 1952, Artur escreve ao CEP a pedir a publicação de uns reparos sobre um artigo publicado em Julho de 1951:

Em 1953 o presidente do Centro de Estudos pede o acordo do Governador para a nomeação  de Artur como membro residente do CEP:
Em 1955, Artur publica no jornal Arauto de Bissau um pequeno artigo sobre “Humilhação e Humildade:

Artur Augusto participou, acompanhado por Eduino Brito um colega do Centro de Estudos da Guiné, no Sexto "Congresso Internacional dos Africanistas Ocidentais" que teve lugar em São Tomé em Setembro de 1956.  

O Centro de Estudos da Guiné teve que pedir o acordo do Ministro do Ultramar passando pelo Governador da Guiné.

No âmbito deste congresso Artur Augusto apresentou um trabalho “Ensaio de compreensão da escultura Nalu" que esta disponível neste blog:

Algumas das fotografias que fazem parte da comunicação apresentada no congresso estão aqui:

A PIDE alerta imediatamente  a delegação de São Tomé.


E alerta também a PIDE de Lisboa quanto ao facto de Artur e um conjunto bastante alargado de pessoas na Guiné são racistas destacados e desafectos ao regime politico:

Numa passeata pelos arredores de Bissau (tavez na Granja de Pessubé):

Visitou vários países africanos, recolhendo elementos que mais tarde lhe serviriam para escrever outros livros.  Esteve nomeadamente na Praia em Cabo Verde, onde foi tirada esta fotografia:

Em Julho de 1957 Artur publica um trabalho sobre os “ Usos e Costumes Juridicos dos Fulas da Guiné Portuguesa” com um prefácio de Marcel Caetano:

Anos mais tarde quando foi feita uma nova edição desta obra, o jornal de  Bissau publica uma pequena critica da obra.


Artur publica no Boletim Cultural da Guiné Portuguesa em Julho de 1954 um trabalho intitulado “O Direito Penal entre os Fulas da Guiné (Apontamentos)" :

Recentemente Mario Beja Santos divulgou um comentário sobre este trabalho que pode ser visto neste blog.


O trabalho de Artur sobre os Usos e Costumes Juridicos dos Mandingas mereceu esta critica de Amandio César publicada no Diario Popular:

Em 1959 concorreu ao Concurso Cientifico e Literario com o trabalho sobre os "Usos e Costumes dos Felupes da Guiné" tendo ganho o prémio Honorio Barreto atribuido pelo Centro de Estudos.

Um dos vogais do Centro de Estudos emitiu o parecer seguinte sobre o trabalho sobre os Felupes:

Outras obras:

Este trabalho sobre as populaçoes oeste-africanas foi tambem objecto de uma comunicação no Sétimo Congresso Internacional dos Africanistas Ocidentais que teve lugar em Abril 1959 em Accra. Aqui esta uma fotografia dos congressistas:

Em 1959 é convidado a colaborar no jornal Bolamense:

Em Dezembro de 1961, Artur publica na revista Panorama uma evocação do Natal na  Guiné:

No livro Poemas, editado pelo Instituto Camões e pelo Centro Cultural Português da Guiné Bissau em 1997, o primeiro poema é dedicado a Mamadu Baldé:

No ambito de um processo movido contra Antonio Silva Gouvea, Artur publica:
O texto da "Pequena Viagem Através de Africa", conferência pronunciada em 1963 na Associação Comercial da Guiné, pode ser lida neste blog:

Pequena viagem através de África

Artur Augusto Silva


Conferência pronunciada em 1963 no salão nobre da Associação Comercial da Guiné, no 46º aniversário da sua fundação.


OBSERVAÇÃO

Devo ao homem da rua, ao homem da rua que eu sou, uma explicação:

Os assuntos africanos são mal conhecidos em Portugal, o que não impede que cada português se julgue suficientemente esclarecido e tome partido, resolutamente, nos problemas que diariamente se nos levantam.

Mostrar a complexidade do problema e chamar para ele a atenção de todos, é dever indeclinável daqueles que procuram viver em paz com a sua consciência e na vida só buscam a verdade.

Quem, para vos falar acerca de África, está perante Vossas Excelências é, no saboroso dizer de um poeta, «o vulto do meu corpo, mas eu não».


Que são os homens, mais do que a carne de outra carne, o sangue de outro sangue, vindos das gerações que nos precederam e que se projectarão nas gerações que moldarmos?

Meus Pais e Avós, desde que se iniciou a empresa magnífica dos oceanos e das conquistas, logo se estabeleceram na ilha da Madeira para, depois, descerem ao longo da costa africana fixando-se em Cabo Verde, nesta Guiné, em Angola e Moçambique. E de tal forma que hoje, quando olho para uma carta do mundo, posso assinalar a presença de parentes em todas as regiões habitadas do globo.

Parentes que, periodicamente, cumprindo um ritual secular, vão até à pequena casa lusitana para retemperar o ânimo e logo voltarem ao seu labor.


Assim, menino era eu, já ouvia as histórias daqueles parentes que tinham andado mundo e visto as suas maravilhas. E posso dizer, sem exagero, que, vivendo em Lisboa, mais familiares eram para mim as regiões de Sena e Tete, São Paulo, Nova York mesmo, do que o Porto ou Coimbra.


E quando, vai para quarenta anos, cheguei à Guiné pela primeira vez, tudo me era familiar e nada me surpreendeu.


Há mais de quarenta anos que ando pelos trópicos e há mais de vinte e cinco anos que me fixei na Guiné. Percorri toda a África desde a Argélia à África do Sul, desde o Egipto a Marrocos, utilizando aviões, comboios, vapores, carros e canoas. Dormi nesses maravilhosos hotéis que o engenho humano criou e dormi também nas mais modestas palhotas das mais modestas tabancas africanas.

Bebi aquela água barrenta, de aspecto leitoso, que se colhe nos poços das povoações perdidos no mato; atravessei rios e pântanos sob um calor escaldante; torneei florestas densas e subi montanhas abruptas; percorri as areias imensas dos desertos africanos; tiritei de frio e abrasei-me e longamente conversei com Tcherno Bokar, a quem Teodoro Monod, com aquele sentido de penetração das coisas africanas que só ele possui, chamou «um homem de Deus».


Falei com chefes políticos e religiosos e, se já estava preparado para receber as mais diversas ideias pelo sentido universalista da minha educação, mais se desenvolveu em mim e radicou a convicção de que para tudo compreendermos, tudo devemos amar.


Procurei, através do povo humilde e anónimo, estudar as estruturas em que assenta a espinha dorsal de África, partindo do princípio que me ensinou Tcherno Bokar de que «aquele que só ama os que pensam como ele não ama os outros: ama-se a si próprio. E aquele que ama os que não pensem como ele, ama a Deus, que é pai de todos».

A grande, a esmagadora maioria dos europeus, tem uma visão falsa e deformada da África, porque só nos últimos cinquenta anos se progrediu no conhecimento deste continente e dos seus povos.


África Misteriosa, África Portentosa, Terra Incógnita, eis três títulos de livros aparecidos neste século e que por si mostram o desconhecimento que atinge até as chamadas elites.


Nós outros que por cá andamos, aparecemos à imaginação dessa gente como pessoas semi-lendárias, em luta constante contra as feras, os povos, os mosquitos, as inclemências da selva e do clima. 


E não posso esquecer que ainda há poucos anos circulavam na então África Ocidental Francesa, umas notas de mil francos onde se via em atitude de herói cinematográfico, um europeu — presumivelmente um francês — de largo chapelão colonial, camisa folgada, calções curtos e umas imponentes botas altas empunhando uma arma e, arrogantemente, pisando uma leão morto.


Podemos dizer: a verdade da imagem correspondia ao exíguo valor da nota.
O artista que a desenhou e os graves senhores do Conselho de Administração do Banco que aprovaram, julgaram por certo ter encontrado a imagem verdadeira da vida europeia nos trópicos.


Pelo conhecimento que tenho de África, posso afirmar, sem receio de ser desmentido, que nunca nenhum verdadeiro africanista calçou tão incríveis botas, que nada protegem e só dificultam o andar no mato.


Mas é aquela a imagem que persiste e quando nós outros, em conversas com amigos, dizemos da simplicidade da nossa vida em África, da comunidade fraterna que se estabelece entre europeus e africanos, da vida dura sim, mas cheia de poesia, ninguém nos acredita e até sucede que em África, nas cidades, aqueles europeus adventícios a que os portugueses do século XVI chamavam «reinois», também não acreditam, porque transplantaram para cá a mentalidade e os hábitos da Europa.


É certo que hoje, em África, soprou um vento de insânia mas, se bem olharmos, veremos que quem provocou esse vento são aqueles que desconhecem a realidade africana e não a querem compreender.


A África aí está na soberba imponência das suas matas frondosas, dos seus rios majestosos, das suas lalas verdejantes, dos seus desertos e montanhas, dos seus povos admiráveis mas, para bem aprendermos a importância das matas, a majestade dos rios, o admirável dos seus povos, é preciso despirmos vinte séculos de preconceitos, e de coração aberto e puro nos embrenharmos por esta terra imensa, deleitarmos a vista no mar sempre verde que é a terra, parar na contemplação de todas as cambiantes que vão do verde garrafa até ao verde quase branco, ver como as próprias árvores, no mais ínvio do matagal, crescem direitas, hirtas, em busca da luz e da liberdade; é preciso percorrer os rios, ao romper da alva, quando o cinzento do dia vence a negridão da noite e as garças, no seu voo gracioso, cortam os ares em bandos; percorrer as margens desses rios e surpreender os antílopes que aí se vão dessedentar.


É preciso ainda, e essa é uma das chaves que abre os segredos do continente africano, conhecer os seus povos, irmanar-se com eles, sofrer e alegrar-se com os seus sofrimentos ou as suas alegrias, compreender a sua psicologia, penetrar a razão profunda da orgânica sócio-económica, amar as crianças e venerar os velhos.


É preciso, sobretudo, encher o coração de amor, porque só o amor derruba montanhas, porque, como disse Petrarca: é ele «che muove il sol e l’altre stelle».


É talvez esta a qualidade que um africano mais aprecia e admira.


Compreenda-se: refiro-me não ao amor físico, mas ao que encontrou em S. Francisco de Assis a sua forma mais alta e perfeita. 

Só agora reparo que, com aquela psicologia fácil de que nós outros, ocidentais, somos mestres, estava generalizando a toda a África as observações colhidas em lugares restritos deste continente e, como me ensinaram os felupes: «a lebre e o burro têm ambos orelhas compridas, mas a lebre não é irmã do burro».

Mesmo onde encontrarmos semelhanças, convém não precipitar as generalizações.

Este defeito é particularmente sensível naqueles que, ao fim de um ano de África, peroram e dissertam, aliás muito doutamente, sobre África e os africanos.

Vem a propósito a citação de um provérbio felupe que diz: «a onça que nasceu na entrada do tempo seco, quando caem as primeiras chuvas, logo comenta: nunca vi chover tanto».

É porque citei, quase de seguida, dois provérbios, que devo dizer que os povos africanos têm deles uma tal riqueza, não só em quantidade com em profundidade de conceitos, que espanta.

E compreende-se o fenómeno: sem literatura escrita e com um sentido de crítica que transparece nos mais pequenos pormenores da vida, os povos africanos memorizam em pequenas frases a sua experiência milenária. Experiência que é transmitida em adágios, anexins, fábulas e poesias.

Este fenómeno, que foi verificado e apontado por todos quantos se têm dado ao trabalho apaixonante do estudo da África, foi posto em relevo no notável ensaio sobre a filosofia Bantu, do Pe. Tempels.

É absolutamente indispensável, para se conhecer o «homem africano» na sua verdadeira personalidade, contactar com ele profundamente, vê-lo recolhendo frutos, caçando ou lavrando os campos, na floresta ou na planície aberta, assistir às suas cerimonias religiosas ou profanas, conversar ao cair da tarde, sentados no «bentem» debaixo de uma árvore frondosa onde as pessoas graves da povoação se juntam, discutindo os assuntos de interesse «nessas intermináveis palavras» que são como que o coração dos africanos.

ldentificarmo-nos com eles, vivermos os seus problemas como se fossem nossos e depois de julgarmos ter conseguido uma identificação completa, lembrar o provérbio africano que diz que «um tronco de árvore pode estar no rio durante muitos anos, mas não se torna crocodilo».

Há quem pense que a cultura da chamada África Negra viveu até há poucos anos, sem qualquer ligação com as outras culturas: oriental, mediterrânica e europeia.

Os últimos trabalhos de investigadores têm provado que assim não é. Embora o caminho para um esclarecimento total dos contactos culturais seja ainda longo, a verdade é que ele vai sendo percorrido metódica e pacientemente pelos investigadores, por esses homens admiráveis que, devotados à ciência como o meu amigo e sábio Almirante Teixeira da Mota tudo devem a esta Africa maravilhosa: juventude, saúde e devotada inteligência.

O problema dos contactos culturais da chamada África Negra coloca-nos em face de um número infinito de interrogações e lacunas que só podem obter resposta ou ser preenchidas com hipóteses, enquanto não for possível encontrar elementos que habilitem o estudioso a formular uma teoria com base em dados concretos.

O estudo da África, nos seus múltiplos aspectos, só muito modernamente se iniciou e mesmo assim tem sido fragmentário, parcial e, na grande maioria dos casos, levado a cabo por curiosos dos problemas africanos e não por indivíduos devidamente habilitados.

Não se fizeram pesquisas sistemáticas, mas os elementos recolhidos pressagiam uma riqueza que deve ultrapassar as esperanças mais optimistas, e é bem provável que num futuro próximo já seja possível delinear-se uma teoria com alicerces na terra.

No estado actual dos conhecimentos históricos, podem assinalar-se duas importantes vias de comunicação da África Negra com o mundo exterior: a primeira em tempo, verificou-se ao longo da costa oriental da África onde chegou a florescer um comércio importante com a Arábia e a Índia e, através destas duas regiões, com o restante mundo.

Zendj-Bar (em tradução !iteral «costa dos escravos») chamavam os árabes àquela porção da costa africana que fica ao sul da actual Somália e correspondente sertão. O intenso comércio aí praticado colocava os povos dessa região em contacto estreito com povos da Ásia e respectiva civilização. 

Escavações levadas a cabo na Africa Oriental revelaram a presença de louça chinesa e indiana a par de contarias de proveniência asiática.

As lendárias minas de ouro da rainha de Sabá, ou de fenícios, que encheram a imaginação dos europeus que primeiro tiveram conhecimento das minas do Monomotapa e que as mais recentes investigações demonstraram ser puramente africanas, matando assim mais uma lenda, alimentando com o ouro delas extraído aquele intenso comércio.

O activo tráfico que os árabes mantiveram com as regiões costeiras da Africa Oriental foi, já na época proto-histórica, o primeiro grande contacto que os africanos tiveram com o exterior.

Mas, se exceptuarmos as populações africanas da orla do mar índico com quem os árabes contactavam profundamente, populações que se foram gradualmente muçulmanizando, os outros povos do interior só conheciam o aspecto material da civilização estrangeira. Compravam panos e outros tecidos, contarias, armas e essências e entregavam, como pagamento, ouro, marfim e escravos.

O aumento de comércio teve como consequência a criação de um império — o de Monomotapa — com características estranhas, entre as quais avultava a existência de uma aristocracia industrial — a dos exploradores das minas, uma plebe que vivia dos produtos da terra e uma multidão infinita de escravos que trabalhava nas minas por conta da aristocracia industrial.

Lentamente, com a lentidão própria destes fenómenos, foi-se verificando uma penetração de usos e costumes muçulmanos, a religião vai conquistando novos adeptos ou influenciando as religiões ancestrais; de qualquer forma fazendo nascer uma civilização diferente, estruturando-a em novas bases.

Compreenda-se: a transformação opera-se em virtude da modificação da base económica. Inicialmente, as sociedades este-africanas viviam em sistemas económicos fechados (de suficiência familiar ou de suficiência tribal) mas, com o desenvolvimento da exploração mineira, do tráfico de escravos e do comércio de marfim, produz-se uma modificação no sistema anterior e cresce e desenvolve-se uma civilização de tipo capitalista primário. Essa transformação é acompanhada de uma modificação da estrutura social.

Os muçulmanos, ao mesmo tempo que permutam os artigos do seu comércio, colocam os afro-negros em presença de uma religião que traz o prestígio de ser praticada pelos povos que lhes vendiam os artigos por eles cobiçados.

Contrariamente ao que depois sucedeu com o cristianismo, o Islão podia adaptar-se perfeitamente às religiões africanas porque não repudiava, antes fortalecia, um dos pilares da sociedade africana primitiva: a poligamia e uma forte estrutura familiar. E mais: os muçulmanos sempre se mostraram tolerantes para com religiões dos outros povos, nunca repudiando as sobrevivências dessas religiões nas práticas rituais dos recém-convertidos. Por isso, o islamismo africano é mais uma simbiose de religiões, do que uma religião.

E porque o antropomorfismo e o zoomorfismo estão completamente banidos de islamismo, todos os povos que o adoptaram deixaram de representar figuras de animais, o que teve com consequência o declínio das artes figurativas e o seu desaparecimento.

Os contactos culturais na África Oriental modificaram as estruturas tradicionais e produziram uma integração desses povos africanos do fenómeno religioso islâmico e assim é que ainda hoje e sobretudo graças às facilidades de comunicação se assiste a um movimento avassalador no sentido da África Negra.

Bem entendido: o fenómeno tem a sua raiz profunda numa mudança de estrutura económica e não, como pode aparecer ao observador desatento, num contágio superficial e meramente cultural.

Acelerado o desenvolvimento económico dos povos negros, estes vêem-se a braços com o problema da sua organização socio-económica, pois que as acanhadas formas que satisfizeram a época da subsistência familiar já não correspondem às necessidades da vida e, então, procuram apoiar-se numa forma de transição que representa, a seu ver, um progresso que corresponde às novas condições de vida.

Os contactos culturais vão progressivamente aumentando, e de tal sorte que deles nasce uma nova sociedade, com diferentes padrões de moral, novas estruturas e novos horizontes.

O que sucedeu na África Oriental, repetiu-se de um modo diverso, mas não menos profundo, no ocidente africano.

Assim, desde a mais remota antiguidade os povos mediterrânicos estiveram em contacto com a África. Lembremo-nos que os célebres elefantes com que Aníbal aterrorizou a Espanha e a Itália, eram de proveniência oeste africana e recordemos ainda que alguns séculos antes de Cristo já os cartagineses procuraram estabelecer contactos marítimos com os povos oeste africanos.

Conforme é do conhecimento geral, cerca de mil anos antes de Cristo, floresceu na parte ocidental do deserto do Sara uma civilização brilhante, em muitos pontos semelhantes à que se desenvolveu no sul da França e na Península Hispânica.

Atestam a presença dessa civilização, as admiráveis pinturas rupestres do Hogar, tão semelhantes pela técnica às de Altamira que já não é lícito aventar outras hipóteses que não sejam a de uma filiação numa civilização comum.

O investigador francês Vallois exprime-se do seguinte modo: «a arte Bosquimane assemelha-se extraordinariamente à das nossas cavernas. Como em França e na Espanha, a representação de animais é de uma qualidade superior às representações humanas. As duas regiões são ligadas por uma continuidade de pinturas rupestres desde a França até ao Cabo, passando pela Espanha, norte de Africa, Sudão, Tchad e Transval. Esta ligação leva-nos a considerar o continente africano um centro de importantes migrações que tiveram um papel relevante no povoamento da Europa meridional».

Devemo-nos recordar que há mais de quatro mil anos o actual deserto de Sara era uma região abundante de águas e vegetações e, logo, um local propício para a vida humana.

Assim, desde a mais remota antiguidade os povos mediterrânicos estiveram em contacto com a Africa, e esta própria designação que hoje damos ao continente, foi-nos legada pelos cartagineses que a si se chamavam Afri. Assim que os romanos chamavam a Cartago, África, pondo esta designação à Numídia e à Mauritânia que eram adjacentes.

Os viajantes que pelo ocidente africano jornadearam a partir do século Xl, desde El Bekri, que nos deixou uma descrição do célebre império do Gana, onde o ouro era usado em profusão, não só pelo soberano como pelos cortesãos e até pelo povo miúdo, passando por lbn-Batuta, que no século XIV faz um relato colorido do império de Mali, ou dos Malinkes ou dos Mandingas, até ao português Álvares de Almada que com raro espírito de observação descreve os povos da costa ocidental até ao Cabo das Palmas, todos são unânimes em pôr em relevo o estado adiantado de civilização em que viviam estes povos.

Refere lbn-Batuta que o imperador Moussa, que partiu em peregrinação a Meca em 1324, levou com ele tanta riqueza, que o curso de ouro baixou no Egipto, em resultado da abundância daquele metal.

Foram viajantes árabes quem levou, em primeira-mão, aos portugueses de Ceuta, a notícia de uma região do Sul onde havia ouro, marfim, almíscar, madeiras preciosas e plumagens vistosas.

Foram eles que acenderam em nós aquela chama de audácia e aventura, aquela ânsia incontida de vastos mares; foram eles quem, impensadamente nos abriu as portas do pequeno mundo europeu, o que nos levou nas frágeis naus e caravelas de então a enfrentar o oceano povoado de monstros, a solidão das águas, a tormenta da sede e a glória de um destino sem par.

Há mais de quinhentos anos que as primeiras caravelas portuguesas atingiram aquela região que os árabes chamavam «bilad-essudan» ou literalmente, país dos negros.

E desde aquela hora primeira em que destemidos marinheiros aqui aportaram, nunca mais cessou o vai-e-vem contínuo de portugueses em África, das naus e caravelas sulcando o oceano e, por tal forma, que lhe podemos chamar «o mar da nossa família».

Os contactos culturais foram grandes, como profunda foi a influência exercida em África pelos portugueses. E um facto, aparentemente negligenciado, nô-lo atesta: desde São Luís do Senegal, até à Serra Leoa, quem quiser jornadear sem cuidados, aprenda crioulo, pois de nada lhe valerá o francês ou o inglês. Um exemplo posso citar; percorrendo eu o sul da actual República da Guiné, tive curiosidade de visitar uma povoação da Serra Leoa onde, mensalmente, se realizava uma grande feira de ouro e diamantes. Chegando à povoação, poucas pessoas entendiam o francês ou o inglês e foi em crioulo que nos entendemos todos. E, facto curioso, nenhum dos africanos tinha a menor ideia de que estava falando urna língua filha do português.

Aquela «experiência romântica nos trópicos» a que Baltazar Lopes dedicou um estudo profundo que nunca será demais louvar com gratidão, estava comprovada, e dera os seus frutos. 

Para melhor compreendermos a África, torna-se necessário descrever, embora sumariamente, as diversas formas de organização social que a tradição ainda mantém para, em seguida, lançarmos um olhar ao que se está tentando levar a cabo.

O primeiro sistema social, aquele que mais fere e compreensão dos ocidentais, é a anarquia que vigora nalguns povos africanos.

Tomemos, por exemplo, os balantas. A sua organização social corresponde à definição etimológica de anarquia: ausência de governo.

O sistema vigora em todos os agregados africanos de pequenas dimensões — agrupamentos sociais lhes chamaríamos nós — tenham eles por base a família, a religião ou associações de carácter defensivo-ofensivo, como as classes de idade.

O primado das condições materiais é o fulcro da organização anárquica: não existe, nem é necessária, uma autoridade nem força, porque as disputas são reduzidas ao mínimo pela aceitação tácita dos costumes imemoriais.

A desobediência tem como sanção um elemento moral da mais alta transcendência: o desprezo da comunidade. 

O homem que as sofre, na maioria dos casos, só no suicídio encontra uma fuga para o terrível isolamento em que passa a viver.

Por vezes, pode juntar-se ao desprezo da comunidade uma outra sanção moral, de fundo religioso: a doença e a morte provocadas pelos espíritos dos antepassados que velam pela boa ordem do povo.

Só em caso de extraordinária gravidade é que a colectividade toma uma deliberação extrema: o banimento daquele que infringiu o costume instituído pelos antepassados.

O parentesco ou a ligação em classes de idade é o vinculo que une os homens.

E as próprias lutas dentro da tribo, mais se assemelham a competições desportivas do que a guerras, porque nunca ultrapassam o aspecto desportivo. Veja-se como entre os felupes, por exemplo, quando duas tabancas entram em guerra, logo surge outra tabanca que vai apreciar a luta e não deixa que esta atinja grande crueldade. Quando os árbitros vêm que a contenda toma foros de crueldade, logo intervêm e apaziguam os beligerantes.

Este sistema anárquico não vive, como pretendiam os teorizadores europeus do século passado, de um individualismo sublimado, mas de um comunitarismo onde o indivíduo não existe.

Entre estes grupos anárquicos, não existe nenhum chefe — os balantas e os felupes, por exemplo, não os têm — e o único comando ou regra de vida é o costume legados pelos antepassados.

Poder-me-ão dizer que entre os felupes existe um chefe «o Aiu». Mais uma observação precipitada daqueles que querem generalizar as nossas instituições a todos os povos.

O Aiu é um chefe que não comanda, nem é obedecido. Limita-se a revelar o costume. Mas porque o costume tem base mística, o Aiu é também o grande revelador.

O poder das crenças religiosas, uma liberdade ampla, uma vida comunitária sólida e uma igualdade de fortuna, mantêm a paz social e a felicidade do povo.

Entre os felupes, há uma palavra comum para designar LIBERDADE, PAZ, FELICIDADE: «kasumeie».

Como acontecia na Roma antiga, tudo o que perturbe a ordem, é considerado um sacrilégio. E sacrilégios são a ambição, a riqueza, a vaidade... 

O regime de regulados é outra forma de organização tradicional africana, ainda em vigor, e floresce normalmente nas regiões de estepe ou de savana.

Aí, a necessidade da defesa num ambiente aberto às razias ou algaras, obrigou as famílias a reunirem-se em volta de um chefe simultaneamente político e religioso.

Aliás o binómio temporal-sacral das nossas sociedades é completamente desconhecido em Africa. Quem detêm o poder temporal, guarda também o poder religioso.

Por vezes, esta poeira de pequenos regulados aglutina-se e surgem os impérios que a história africana regista: do Gana, do Mali, dos Zulus, etc. etc...

As dificuldades da comunicação cedo vêm quebrar a unidade e de novo se volta ao sistema dos regulados.

Quem conhece a história da Europa medieval, facilmente compreenderá este fenómeno.

Para que se possa fazer uma ideia aproximada de como vivem os africanos, em sistema tribal, tomaremos por exemplo um homem e segui-lo-emos desde o nascimento até a morte. Com variantes mais ou menos acentuadas, conforme a tribo, é a seguinte a sua história.

Nasceu a criança: torna-se necessário afastar do seu caminho os espíritos maus e evitar que eles a venham buscar, agarrando-a pelos cabelos. A primeira cerimónia que se realiza é a do corte dos cabelos. Os maometanos costumam rapar quase toda a cabeça, deixando uma mecha pequena pela qual Alá possa agarrar o recém-nascido e levá-lo para o céu, na hipótese de uma doença fatal.

Até aos dois anos e meio, três anos, as crianças são amamentadas pelas mães, pois a dificuldade de encontrar alimentação adequada obriga a prolongar o período de lactação. Até esse período a criança vive quase todo o tempo escarranchada nas costas maternas segura por um pano amarrado na frente. Aí dorme e aí é amamentada, pois as mães, repuxando os seios, passam-nos por baixo das axilas, de forma a atingir a boca da criança. Só a noite quando a mãe vai dormir, é que a tira da posição em que estava, para a deitar a seu lado.

Com a criança escarranchada, a mãe cozinha, lava a roupa, tece, lavra os campos, colhe os frutos, dança, caminha longas jornadas, come e conversa. Cerca dos dois anos, já a criança começa comendo do que os adultos comem: arroz ou milho, inhame, batata-doce, frutos silvestres, amendoim torrado ou pilado, folhas de certas árvores, peixe verde ou seco, carne e leite azedo, acompanhado de óleo de palma ou outro qualquer molho.

A comida é mal preparada e demasiadamente indigesta para estômagos fracos: a criança adoece e, então, experimentam-se as mezinhas dadas pelo curandeiro ou as que a prática aconselha. Se piora, intervém o feiticeiro com os seus sortilégios. A mortalidade infantil é enorme, mas a nossa criança escapou. Passou o primeiro grau de selecção e já oferece certas garantias de vitalidade. Cedo a criança começa a embrenhar-se no mato com os seus companheiros, a subir às árvores e a ajudar os pais na lavoura ou na guarda do gado.

Até à circuncisão é considerado «menino»; não conversa com os homens nem pode casar-se ou ter relações sexuais. Depois dessa cerimónia já se integra no grupo das pessoas sérias. Se é balanta, por exemplo, deixa de furtar.

À tarde, nas horas de maior calor, costumam reunir-se as pessoas de respeito à sombra de uma grande árvore, a maior árvore da povoação ou suas imediações; aí conversam sobre todos os assuntos: colheitas, chuvas, gados, casamentos, notícias palpitantes, contribuições, serviços nas estradas, etc, etc... Só depois de o nosso homem ter ido à circuncisão pode tomar parte nessas conversas. Está na idade de procurar ganhar dinheiro suficiente para se casar. Ou a família o ajuda, se tem posses e o pai vê que pode dispensar aquele trabalhador, ou ele terá de ir ganhar a vida em qualquer ofício.

Casado, constrói uma casa, sendo agora raro que vá viver para casa do pai. Realizado o casamento, temos o nosso homem armado em chefe de família, não completamente independente porque tem para com o pai obrigações que se prolongam até a morte deste.

Cultiva o campo para sua subsistência e para vender os produtos. Compra gado: primeiro caprino e suíno, depois vacum. Cria galinhas ou patos para comer mas, mais frequentemente, para vender.

Vai envelhecendo e, com o avançar da idade, recebe maiores provas de respeito e consideração por parte de todos. Envelheceu; é um «homem grande», de autoridade e conselho, ouvido com respeito em todos os assuntos que se prendem com a tribo ou com a sua tabanca. 

Rodeado de filhos e mulheres, tem agora muito gado e algum dinheiro metido numa lata ou garrafão, para evitar a destruição pelos bichos. Porém, um dia, adoece o nosso homem: são convocados os feiticeiros e os curandeiros (normalmente estas duas profissões liberais andam associadas) e estes decretam: está velho, vai morrer. São chamados os parentes, os filhos que vivem longe e, rodeado por todos, morre como qualquer mortal. Inicia-se a cerimónia do choro que se prolonga por muitos dias, numa orgia infernal. Abatem-se dezenas e às vezes centenas de cabeças de gado das manadas do defunto. Os não maometanos bebem quantidades enormes de vinho ou aguardente; o celeiro do defunto, onde está arrecadado o arroz ou o milho, é esvaziado para alimentar centenas de bocas. Dança-se e canta-se e ninguém descansa um minuto sequer enquanto o chôro decorre. O nosso homem baixou à terra; puseram-lhe pedras ou paus em cima. Cobriram-no de terra, enquanto o seu espírito se libertou de corpo, aquele espírito que eles vêm em sonhos e os aconselha ou repreende, os protege ou persegue.

Viveu!! Vimos, de relance, a África milenária, aquela que se nos afigura imóvel nos seus princípios e nos seus objectivos, aquele continente que até há alguns anos parecia adormecido num quietismo ancestral.

Dominada por uma economia de suficiência familiar, esta África foi tocada pela mão do tecnicismo que tudo revolve e transforma.

E aqueles povos que eram cegamente comandados por uma economia quase autárquica, viram-se subitamente empurrados para uma nova organização que veio quebrar os laços tradicionais.

O homem isolado, em África, nada era; assemelhava-se a um grão de areia impelido pelo vento, sem destino e sem vontade.

Só a estrutura orgânica, da família, da tabanca, do regulado, das sociedades secretas ou dos grupos de idades, dava personalidade ao africano e lhe permitia sobreviver num ambiente em que a hostilidade dos elementos o espreitava a cada passo.

A lenta industrialização do continente foi carreando para as cidades, para as minas e até explorações agrícolas de tipo técnico, uma multidão de homens que se desenraizaram e não encontraram um substituto, uma nova orgânica.

O homem isolado, sem a protecção dos seus parentes e dos deuses, mergulhou no caos espiritual, passou a vaguear sem norte no meio de uma civilização que ele não compreendia, porque o salto foi demasiadamente brusco. E, entretanto, a atracção para o caos continuava, porque esse caos era a promessa de uma vida mais desafogada, em contacto com uma civilização que oferecia maiores comodidades materiais.

Passou de um povo, que era essencialmente espiritual, que vivia dos mitos que havia criado, para uma civilização de tipo eminentemente materialista, como é a nossa.

Seja-me permitido observar que a nossa civilização, apregoando o primado do espiritual sobre o material, oferece o exemplo mais acabado da luta desenfreada pela satisfação dos instintos materiais. E o exemplo mais perfeito de uma sociedade em que predomina o material sobre o espiritual, oferece-nos a América, onde os homens valem pelas fortunas que possuem e não pela perfeição da sua vida, pela grandeza dos seus pensamentos, ou pela altura da sua inteligência.

Lançados os africanos neste novo tipo de sociedade, só superficialmente nela se podiam integrar.

E então, quebrado o equilíbrio orgânico dos homens, estes entraram em todas as aventuras, buscando febrilmente uma saída que lhes permitisse reencontrar o que haviam perdido. Há cerca de uns vinte anos, estando eu em Abidjan, foi lançado pelo Sindicato dos empregados de caminho de ferro, ordem geral de greve destinado a obter um aumento de salários, que todos os empregados haviam aprovado.

Aconteceu porém que a Direcção dos Caminhos de Ferro anunciou que demitiria quem fosse para a greve. Receosos de perderem os empregos, ninguém obedece à palavra de ordem do Sindicato.

A Direcção deste teve uma ideia genial: chamou um feiticeiro que amaldiçoou e lançou anátemas sobre quem tomasse o trabalho e excomungou as locomotivas.

Nesse mesmo dia paralisaram completamente os transportes ferroviários e a Direcção dos Caminhos de Ferro teve de ceder.

Para aqueles que pensam ligeiramente sobre África e os seus problemas, este facto parece caricato e desprovido de sentido. Erro, e erro grave. Mostra-nos a força que os mitos têm sobre os africanos. 

Em 1804, William Pitt, uma das mais vigorosas personalidades da política inglesa, escreveu: «que ninguém venha dizer que a África é, por natureza, incapaz de civilização. Nós fomos, outrora, tão selvagens nos nossos costumes e tão ignorantes como hoje o são os africanos. Esperemos que na sequência dos outros continentes, a África venha a gozar dos benefícios que nos são prodigalizados tão abundantemente».

Um século e meio se passou. Mas, que são cento e cinquenta anos para aqueles que vêem os acontecimentos no plano histórico e continuamente têm de navegar pelo «sombrio rio dos mortos», como à História chamava Michelet?

Um traço ligando duas palavras; uma pausa no lento caminhar da humanidade.

A África acordou: os seus duzentos milhões de habitantes foram sacudidos pela mão nervosa do progresso; os investimentos que têm sido feitos, o ardor com que os seus povos se lançaram na dura luta pela existência, levam-nos a crer que, transposta a fase de desorganização orgânica, o progresso seja seguro e durável.

Ai, porém, dos povos subdesenvolvidos; cada milímetro de progresso tem de ser regado com o suor dos homens. E seja naqueles países que directa ou indirectamente se ligaram ao bloco socialista, seja nos que dependem do bloco capitalista, a verdade é que o esforço exigido atinge quase o limite do que se pode pedir a um ser humano, no capítulo de trabalhos e sacrifícios, pois que cada vez se torna mais evidente a verdade da expressão: «capital is made at home’.

O verdadeiro capital produz-se no próprio país e aquele que importa capital, torna-se dependente.

O bloco socialista pretende exportar para África a mística da industrialização que ajudará este continente a criar um mercado interior que lhe permita diminuir, na mesma proporção, os artigos da exportação tradicional destinados a pagar as importações.

A industrialização faria morrer as classes íntermediárias e as classes feudais, facilitando uma reforma agrária que conduziria, segundo a doutrina, a uma melhor distribuição do rendimento nacional.

Por outro lado, alguns países capitalistas procuram injectar nas regiões africanas capitais e técnicos, por forma a fazerem nascer em África estruturas capitalistas semelhantes às que existem nos seus países.

Ambos os métodos — socialista e capitalista — fundam-se na hipótese de que as respectivas experiências económicas são exportáveis e adaptáveis a África, o que constitui, a nosso ver, a causa principal das convulsões deste continente. 

Ora, as condições económicas, sociais, morais e até climáticas são diferentes, pelo que se afigura mais ponderado considerar-se a realidade africana na sua verdadeira essência, estudar a orgânica social dos diversos povos que constituem o seu emaranhado xadrez para, com base nas conclusões a que se chegar, construir-se o mundo novo africano.

Nalguns países de independência recente, verificou-se que as duas utopias — a socialista e a capitalista — só serviram para mascarar uma intervenção política e estratégica.

Segundo estudos levados a cabo por técnicos da ONU, qualquer país subdesenvolvido que queira aumentar o seu rendimento nacional tem de investir, só em bens de equipamento, cerca de quinze por cento do seu rendimento.

Por outras palavras: se um africano deseja elevar seu nível de vida, deve aceitar, para já e durante alguns anos, uma diminuição no seu consumo de uma quinta parte do que ele produz.

Seja-me permitido dar um exemplo retirado de um estudo feito por peritos da ONU: para fornecer só aos povos asiáticos, máquinas e alfaias precisas para um leve aumento de rendimento agrícola, só num ano, seria necessário o equivalente a três vezes o rendimento total dos Estados Unidos. Bastam estes números para se ter uma ideia pálida do esforço que toda a humanidade subdesenvolvida terá de dispender para alcançar uma era de paz e prosperidade.

Só agora reparei que estas minhas palavras iam tomando o ar dogmático e conselheiral, impróprio de quem, como eu, é o mais modesto grão de arroz deste mundo. 

E só agora reparo que me alonguei para além do que era legítimo exigir daqueles que, como Vossas Excelências, com tanta bondade me deram a honra de permanecer aqui, para me ouvir.

Vou terminar: como ontem e como sempre, direi que para lá dos interesses materiais que envenenam a vida e dividem os homens, todos devem viver juntos e juntos trabalhar, irmanados no desejo de colaboração pacífica, sem explorações nem ódios, porque só assim bem mereceremos dos nossos concidadãos. 

FIM

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Durante vários anos foi membro residente do Centro de Estudos da Guiné que em 1960 contava com estes membros:

Em 1964 foi vogal do Conselho do Governo da Guiné na altura em que era governador o brigadeiro Arnaldo Schulz. Foi este que o mandou prender à chegada ao aeroporto de Lisboa.

No processo da PIDE que se encontra na Torre do Tombo aparece uma nota datada de Dezembro 1965 que vale a pena mostrar. A PIDE considerou como altamente subversivo um conto de Natal. Mais, o ilustre chefe da PIDE em Lisboa, considera que o advogado Artur Silva tem prosapias de filosofo, mas barato, pataqueiro.
Aqui esta o conto de Natal (voir la version française de ce texte sur ce blog)

Artur empenhou-se em defender presos políticos. Foi defensor em 61 julgamentos, um deles com 23 réus, tendo tido apenas duas condenações. 

Durante a estadia na Guiné, Artur viveu feliz tanto em Bissau onde trabalhava como em Varela onde ia em geral passar as férias do Natal. Aqui vão algumas fotografias desses tempos:

Com uns amigos em Bissau. Nesta fotografia aparece à esquerda Helena Salgueiro e Rego esposa do Capitão da Marinha Salgueiro e Rego. A direita do Artur esta a Teresa Daupias Alves esposa do regente agrícola Manuel Alves. A Teresa, de origem nobre era apelidada de Viscondessa de Alcochete e era uma grande amiga da minha mãe Clara. Tinha como antepassado um certo Jacome Ratton que esteve em Lisboa no tempo do General Junot.


Outros amigos que requentavam a nossa casa incluíam a Dra. Sofia de Pomba Guerra que dirigia a Farmacia de Lisboa em Bissau e que durante uma estadia anterior em Moçambique tinha sido inquietada pela PIDE a ponto de ir passar seis meses em Caxias sem culpa formada mas acusada de simpatisar com o Partido Comunista. Na minha memoria era uma Sra sempre vestida de branco que tratava o marido com muita doçura chamando-lhe sempre de “O meu Platãozinho”. 


Outra presença constante em nossa casa era o Dr. Bessa Victor médico em Bissau, angolano de origem, e irmão  do poeta Geraldo Bessa Victor. Lembro-me de o ter acordado pelas 3 da manhã quando o meu pai Artur teve que ser tratado por um calculo nos rins.


O nucleo de senhoras com quem a minha mae lidava:

Em Setembro de 1961, um telegrama da Interpol refere o facto de Artur ter tratado a PIDE de assassinos.

Uma nota da PIDE de Setembro 1964, referente ao julgamento de Rui Barreto, mostra a acção de Artur Silva como advogado da defesa;
Foi preso no dia 26 de Agosto de 1966, no aeroporto de Lisboa à chegada de Bissau, já em plena luta de libertação da Guiné, e foi detido na prisão de Caxias durante 4 meses sem julgamento. 
Escassos dias antes da libertação de Artur da prisão de Caxias, o Governador da Guiné (Arnaldo Schulz) mostra-se preocupado com a sua eventual libertação.

Foi libertado a 23 de Dezembro de 1966, por influencia  de alguns amigos que lhe conheciam e admiravam o carácter, mas foi-lhe fixada residência na capital. 

A única fotografia de Artur que consta nos arquivos da PIDE.

Em 1967, Marcelo Caetano, convidou-o para ir trabalhar como advogado na Companhia de Seguros Bonança. Também Adriano Moreira o convidou a leccionar no Instituto de Ciências Ultramarinas, o que ele recusou, fazendo ver ao portador do convite a incoerência de o terem prendido pelas suas ideia sobre o colonialismo português e depois o convidarem a leccionar matérias relacionadas com a África.


Durante o periodo ao fim do qual regressou à Guiné, Artur abriu um escritório de advogado na Rua Garret e viveu em Lisboa na Rua Augusto Gil com muitas idas a São Martinho do Porto.


Nesta fotografia aparecem da esquerda para a direita: Joao, Artur, Clara, Painha, Ica, Guida, Guto, Manecas e Chico.

Em 25 de Outubro de 1968, o curso de Direito dos alunos do periodo 1933-38 junta-se para um jantar.

Finalmente em Janeiro de 1970, o Conselho de Ministros decide levantar a medida de residência fixa aplicada a Artur e aos co-acusados Mario Lima  e Severino Pina.


Publica na separata Artes e Letras do Diario de Noticias a 24 de Maio de 1973 um conto intitulado "Os Homens Lobos":

Regressou a Bissau em fins de 1977, foi juiz no Supremo Tribunal de Justiça e Professor de Direito Consuetudinário na Escola de Direito de Bissau  que começou a lecionar em 1979.
Faleceu na capital Guineense em 11 de Julho de 1983.  No jornal de Bissau “No Pintcha” de 13 de Julho foi publicado o seguinte artigo:


Durante a “estadia” na prisão  de   Caxias, Artur dedicou uma parte do tempo à escrita de um conjunto de contos que foram publicados em 2006.


Aqui vai a  Introdução ao Cativeiro dos Bichos:

Gostaria que me dissessem onde acaba a imaginação e começa a história. Estou mesmo em dizer que aqueles sábios que todos respeitam pelo seu ar calado, testa ampla e modos comedidos que, de lupa na mão e muita ciência na cabeça, esquadrilham as chamadas civilizações mortas, são as pessoas dotadas de maior imaginação criadora e nas suas obras, vastas , compactas, herméticas, a tresandar a poeira do armário e cemitério de aldeia mal cuidado pelo coveiro que só encontra no vinho esquecimento para todos os seus graves problemas pessoais, não há uma só linha em que a verdade se possa remirar e reconhecer.


A história, bem, a história é uma macaca que procura imitar a vida! Declarou-me um barbeiro de aldeia, meu amigo, certa vez em que me disse para vigiar os estudos do filho que não havia maneira de se banhar no sombrio rio dos mortos, como alguém já chamou aquela ciência...

Não, não procurei escrever história: falta-me para isso, aquele ar soturno, próprio dos historiadores e mais, aquela audácia de afirmar o que nos é totalmente desconhecido, sem a qual não pode haver um único historiador digno desse nome.


Homem simples, que nasceu como nascem os cardos nas serras, pisados por quantos caminhantes ali passam, aprendi a escrever por acidente. Deu-me a natureza, como a todos os meus semelhantes, dois olhos que tenho conservado bem abertos e isso tem sido a minha salvação e a minha desgraça; salvação da alma, desgraça do corpo. Porque muito tenho visto, a imaginação pôde dilatar-se à vontade e porque nunca tive mestres, ela desenvolveu-se livremente.


Não sou um anarquista, meu Deus!! Juro à fé do Alcorão que abomino essa gente, de sórdida guedelha e de muito duvidosa limpeza. Na vida tenho conhecido alguns. Têm todos cabelos compridos, barbas longas como as dos apóstolos do primitivo cristianismo e uns fatos em petição de miséria. No fundo são todos boas pessoas (já não há nenhum anarquista que, de ar romântico e atitude heróica,  lance bombas sobre Czares ou Imperadores. Ponho-me a pensar se não será por falta de matéria prima;  os últimos Czares e Imperadores perdem-se nas brumas do tempo).


O que me faz abominar os anarquistas e os seus parentes bossa nova é o ar sujo que têm: o ar encardido de quem nunca fez passar pelo corpo uma gota de agua, nem da chuva e aquele aspecto luzidio que o sebo amontoado provoca.


Já ia divagando demais e estou a ver o leitor engelhar a fronte em sinal de desagrado. Ora, na muito fundada opinião dos editores, o leitor deve sempre ser lisonjeado porque senão, bolas para o negocio... O leitor deve ser tratado por Vossa Excelência e ao escritor compete mostrar-se, em todas as conjunturas, muito atento ao que interessa: história? ficção?


Como se vera no decorrer deste livro, não há imaginação humana capaz de inventar tipos e situações como as que aqui são narradas. Só a realidade, que possui muito mais fantasia do que a imaginação humana, seria capaz de arquitectar homens e casos com os de Benito, Manolo, Otto Pumpf e outros.


Explicava-me um bom e simples cura de aldeia – orientador espiritual da minha infância e a quem recorro nos momentos difíceis – que é a imaginação de Deus que cria a realidade, enquanto que a ficção nasce da pobre imaginação humana. Concluo assim que qualquer homem que tenha dois dedos de juízo faz o que sempre viu fazer com tranquilidade e proveito, a todos os funcionários públicos: não se matam a trabalhar  e deixam corre o marfim. Isto é como quem diz: não te rales com o trabalho que as coisas se resolvem por si!


Esta verdade é tão evidente que não há funcionários públicos que se prezem - daqueles que já no topo da carreira recebem as justas e espontâneas manifestações de apreço do Senhor Director – que a não tenham observado com o escrúpulo inerente aos fieis de uma verdade revelada. A realidade é fruto de Deus; a imaginação, própria do homem.


Assim sendo, sou levado a afirmar que não há história e que tudo é fantasia, imaginação, delírio de cérebros mais ou menos exaltados. Não quero fugir a regra e por isso posso afirmar solenemente que tudo o que se vai ler é pura ficção: homens, lugares, atitudes e que até o eu que aparece com frequência é pura ficção. Esse eu nunca existiu e saiu todo inteiro, armado de argumentos, da minha cabeça, como Minerva saiu da cabeça do Pai Júpiter.


Alguns leitores dados às delicias dos romances policiais, facilmente descobrirão que o eu deste livro esta em dois ou três locais ao mesmo tempo e que por isso, dado que acreditassem na minha palavra honrada, levá-los-ia a pensar que pretendia imitar o Taumaturgo de Pádua, aquele tão nosso Santo António que ate a petizada das bravas serranias de Trás-os-Montes conhece.


Devo uma explicação a tão argutos leitores, que cumprimento pela fina observação e, já agora, peço-lhes licença para tornar extensiva aos menos precavidos – aqueles que lêem um livro, como quem come pevides. Como já disse o eu é produto da imaginação e nada impede que ele esteja em dois, três ou mesmo quatro locais simultaneamente.


Verão ainda que o eu fala correntemente todas as línguas do mundo. Devo esclarecer que a imaginação não precisa falar para compreender.


Em pura ficção tudo é possível: até foi possível escrever este livro.


Alguns, especialmente os inquisitoriais caçadores de feiticeiras, procurarão descobrir neste livro determinadas tendências politicas.  Devo declarar que ele não tem qualquer intenção que não seja a que ressalta da sua realidade e que esta não é de forma alguma, obra dos homens.


Perguntarão os tais caçadores como é que se justifica o acto da publicação com a falta de intenção.


Aqui, segundo o décor dos bons filmes policiais, compete ao caçador esboçar um sorriso entre jocoso e superior, enquanto negligentemente, introduz o polegar na cava do colete, como a que a dizer: apanhei-te.


Não, não me apanhas-te, caro caçador de feiticeiras. Os velhos deliciam-se quando rememoram os acontecimentos da sua mocidade, as pessoas que conheceram, as paisagens que viram, os estados de alma por que passaram, isto é como quem diz: a sua própria mocidade.


Que paisagens mais sedutoras que estas?


De pés voltados para a cova, publico este livro com a intenção única de ter à mão um quadro onde possa rever as pessoas que, em sonhos, me forma queridas, o bulício alegre ou triste de outros tempos, os heroísmos e grandezas, as misérias e vergonhas de um tempo que já não volta, mas parece eternizar-se na sua repetida monotonia.


E agora o conto que deu o nome ao livro:


A história que ides ler foi-me contada na tabanca de Quebo, no sertão da terra dos fulas, por um homem chamado Umarú Só, velho para além de toda a idade e que por ser velho e sábio conhecia os segredos do mundo e as suas maravilhas. Vou narrá-la por palavras minhas, porque sei que não me perdoariam o uso daquele estilo floreado, exuberante, por vezes difuso mas sempre poético que os fulas usam para contar uma história.


Houve um tempo em que todos os seres viviam na mais perfeita harmonia e a paz reinava por toda a parte. Isto passou-se antes de ter nascido uma garça chamada Macute e que ficará para sempre como o anjo mau que perverteu o mundo.


Foi o caso que numa manhã de sol, quando as manadas de búfalos pastavam nas lalas verdejantes de Bambadinca, uma garça ainda nova e inexperiente, ao esburgar com o bico as carraças de um búfalo, picou-o profundamente, o que o levou a dar um sacão com a cauda, sacão que apanhou a garça e a fez cair.


As coisas teriam ficado por aqui se não fora a garça Macute que, de longe, presenciou o caso e porque queria tornar-se rainha das aves, logo engendrou um plano que a conduzisse à satisfação dos seus desejos.

Andou de terra em terra convocando uma grande reunião de todos os bichos que voam para tomarem conhecimento da maior afronta que jamais fora praticada sobre um ser vivente. 


Chegado o dia da reunião, ali se encontrou toda a bicharada que povoa os ares, desde a águia-real, de peito branco e bico adunco, até ao colibri que é mais pequeno que a mais pequena flor. Vieram os papagaios vestidos de cinzento e peitilho vermelho, vieram todos os patos, desde o marreco ao ferrão, vieram as galinhas, incluindo as perdizes e as galinhas da Guiné, todas louçãs na sua vestimenta preta de bolas brancas, vieram os mergulhões de longo bico e plumagem verde, azul, preta e branca, veio toda a casta de pardalada que enxameia os céus, vieram as abetardas no seu voo lento e majestoso e por fim chegaram as borboletas no seu voo saltitante e colorido.


Reunidos todos, a garça Macute dedarou que era necessário escolher um presidente que dirigisse os trabalhos mas, quando esperava ser investida no cargo, teve a desilusão de ver que optavam pela águia-real.


A águia-real soltou três assobios e declarou aberta a assembleia.


Logo a garça Macute levantou uma questão prévia:

- Vejo aqui as nossas boas amigas, as avestruzes, mas afigura-se-me que elas não são aves. Com efeito, desde que o mundo é mundo, não há notícia de que uma avestruz tenha voado. Elas fazem parte dos bichos que andam e, por isso, não devem tomar parte da nossa reunião.


Todas as garças grasnaram em sinal de assentimento e estabeleceu-se um certo burburinho, prontamente reprimido pela presidente que declarou ir pôr o caso à votação.


A coruja, sábia reconhecida por todos, pediu a palavra e disse:

- o problema posto pela nossa companheira, a garça, não é novo e muitas têm sido as opiniões ventiladas sem que se chegue a qualquer conclusão. Se é verdade que a avestruz tem asas, não é menos certo que nunca se serve delas para voar. Em minha opinião, devem ser classificadas entre os bichos que andam e não entre os que voam.


Como, após tão sábio resumo, ninguém quisesse usar da palavra, a águia pôs o caso à votação, e por maioria esmagadora, foi decidido que as avestruzes não eram aves, mas sim bichos que andam.


Então a águia convidou a garça a dizer do motivo da reunião, e Macute começou:

- As aves são neste mundo em que vivemos, os animais mais nobres e mais valentes. Nunca uma de nós sofreu qualquer vexame ou insulto sem que imediatamente respondesse. Ora, devo dizer-vos que é com o coração oprimido de indignação e raiva que vos vou contar que há dias, na bolanha de Bambadinca, uma de nós, precisamente uma garça, foi vítima de agressão por parte de um búfalo. Devo acrescentar que o caso não pode ficar assim e por isso proponho que se declare guerra sem quartel a todos os bichos que andam.


Uma vozearia infernal atroou os ares e os abutres eram, de entre todas as aves, quem mais grita fazia, apoiando tão dignos sentimentos.


Um pardalito que estava presente, voltou-se para um jagudi que deu mostras de grande contentamento e ainda disse:

- O que vocês querem é que haja guerra para poderem comer a carne dos que morrem.


Logo o jagudi, gritando “traidor”, deu-lhe uma sapatada e em três tempos o engoliu.


- Calma! Calma! Gritava a águia-real, receosa de não ter mão na assembleia.


Serenados um pouco os espíritos, a águia deu a palavra ao primeiro orador inscrito, o periquito. Este começou por dizer que a afronta fora grave mas, em seu entender, deveria averiguar-se primeiro se as coisas se tinham passado conforme o relato da garça, porque não via razão para que um búfalo magoasse uma garça, sem qualquer razão. Propunha, pois, uma comissão de inquérito.


O papagaio, segundo orador, citou alguns precedentes em que o comportamento dos bichos que andavam para com os bichos que voam demonstrava crueldade e propôs que o caso fosse levado ao conhecimento do bicho homem que possui discernimento mais do que suficiente para resolver o conflito.


As corujas apoiaram e depois de muitos oradores terem falado, foi resolvido levar o caso ao bicho homem.


Formada a comissão que se avistaria com o bicho homem, dissolveu-se a assembleia, no meio de grande excitação.


O papagaio, como falador de grandes conhecimentos, presidia à comissão de queixa, a qual se dirigiu ao bicho homem para fazer as suas lamúrias. Ouviu o bicho homem as mágoas da passarada e ali jurou que iria investigar, para que se fizesse inteira e completa justiça. Voltassem daí a sete dias, para ouvir a sua resolução.


A passarada retirou-se em boa ordem e o bicho homem ficou a esfregar as mãos de contente porque em sua cabeça surgira um plano. Mandou o bicho homem chamar o rei dos bichos que andam e que é, contra o que se pensa, o elefante. Veio este acompanhado de numeroso séquito do qual fazia parte o seu melhor conselheiro, o macaco.


Exposto o motivo da convocação, logo ali declarou o elefante que as intenções da bicharada que anda eram pacíficas e que nunca, até aquele momento, qualquer dos seus súbditos fizera mal a outrem, facto que devia ser do conhecimento do bicho homem que tudo sabe.


- Na verdade, na verdade, retorquiu o homem. Mas há uma queixa e é necessário saber quem tem razão. Parece-me que seria melhor que os bichos que andam nomeassem um delegado e os que voam, outro, para trazerem à minha presença as alegações de cada parte e as provas a produzir.


Todos concordaram e ficou estabelecido que daí a sete dias se realizaria o julgamento do caso. 

Sete dias passados e à hora marcada, reuniu-se a grande assembleia e o bicho homem, dizendo que ambas as partes lhe mereciam o maior respeito e consideração e que, assim, não podia dar a direita a um e a esquerda a outro, propôs que o representante de cada parte ocupasse a direita durante meia hora e que a primeira posição fosse tirada à sorte.


Constituído o Tribunal, entraram o macaco como advogado dos bichos que andam e mais vinte e sete testemunhas, logo seguido pelo papagaio, representante dos bichos que voam, com vinte e cinco testemunhas.


Historiou o homem o diferendo em poucas palavras e pediu ao papagaio, como advogado da parte acusadora, que dissesse da sua justiça.


Falou o papagaio com perfeita dicção e clareza, citando vários confrades seus e algumas palavras que ouvira aos homens, o que lhe valeu aplausos até dos bichos que andam. Empertigou-se o macaco, abriu os braços como já vira fazer em comícios do bicho homem e analisou, um por um, os argumentos do papagaio e a sua queixa. Falou no amor, na justiça, na piedade, em todos os sentimentos nobres e a tal ponto comoveu a bicharada que voa, fez chorar um pardal, estouvado e brincalhão como todos os pardais.


Exposta a questão, iniciou o bicho homem a audição das testemunhas e quer as de acusação, quer as de defesa, declararam nada saber do assunto.


Concedida novamente a palavra aos advogados, estes excederam-se em citações: foram épicos, heróicos, patéticos, fizeram chorar a assembleia e, logo a seguir, fizeram-na rir desabridamente e foi numa das suas tiradas mais sublimes que o macaco, demonstrando rara intuição científica, classificou o homem de seu primo.


O Chimpanzé que estava seguindo a peroração nos menores detalhes, comentou em aparte: primo, mas degenerado... Depois desta afirmação solene do macaco, os jornais e revistas que o bicho homem publica, começaram-na citando obstinadamente, pelo que hoje é ponto assente a existência de tal parentesco.


O bicho homem suspendeu a sessão por uma hora, ao cabo da qual reentrou para ler a sentença. Era uma longa peça cheia de considerandos e que começava por afirmar que “em virtude de se não ter provado a queixa dos bichos que voam, mas convindo fazer justiça, profiro a seguinte sentença: julgo a acusação improcedente mas, tendo em atenção que a paz é um dever indeclinável de todos os espíritos sãos, e para poder reservá-la, determino que me sejam entregues como reféns e para garantia da paz futura, um animal de cada uma das espécies que voam e que andam”.


Eliminava magnanimamente custas, dada e manifesta pobreza das partes.


Todos os animais, tanto os que voam como os que andam, aplaudiram delirantemente tão sagaz decisão e só o macaco, fiado no parentesco com o bicho homem, quis recorrer da decisão, alegando que “começara a escravatura”.


Ninguém o quis ouvir, a decisão ficou sem recurso (recurso para quem? perguntava o papagaio) e o bicho homem começou encaminhando a bicharada para currais e capoeiras previamente instalados por sua indústria.


A verdade é que com o correr dos anos as palavras do macaco tiveram plena comprovação, pois o bicho homem nunca mais soltou nenhum dos reféns e porque estes se reproduziam e o bicho homem não tinha com que alimentá-los, passou a comer deles cada vez com mais apetite.


Se acontecia alguém perguntar ao homem a razão de tão prolongado cativeiro, respondia: como querem que eu os liberte se ainda ontem vi um milhafre pilhar um rato e comê-lo em três tempos? É com sacrifício, com muito grande sacrifício que dou de comer à bicharada, mas mesmo com sacrifício devo manter a minha palavra honrada e a minha justiça proverbial. É certo que ensinei os bois a trabalhar para mim; é certo que como a carne dos bichos e uso das suas penas e da sua pele em utensílios que fabrico, mas não é menos verdade que todos devem conhecer a minha isenção. Estou esperando que os bichos consigam uma promoção social que os habilite a entrar no concerto dos seres civilizados para, então, lhes dar a liberdade que eu desejo mais do que eles.


Se a história é verdadeira, não posso assegurá-lo pois que os factos passaram-se há muitos anos e não conheci o bicho homem que fez tal justiça; mas, porque Umarú Só é pessoa séria, incapaz de inventar, estou em crer que eles se verificaram conforme a narrativa.


Em 27 de Maio de 1980 o Diário de Lisboa publica um artigo sobre a vida e obra  de Artur Augusto Silva 



Artur Augusto com os filhos em Sao Martinho do Porto provavelmente em 1957
E nesta com três dos netos (Martin, Ivan, Cristina):
Artur e Clara


Em 2020 surge no Facebook uma pagina sobre Artur como representante dos antifascistas na resistência. Na wikipedia ver: https://pt.wikipedia.org/wiki/Artur_Augusto_da_Silva